02/01/2011

Retalhos do Cotidiano Feminino


A escritora canadense Alice Munro


Elza Pires de Campos
(publicado no Correio Braziliense em 01/01/2011)

As tragédias do cotidiano são como retalhos nos dez contos do mais recente livro da canadense Alice Munro; cada trapo, uma  vida pendurada no tempo; uma costura delicada a exigir paciência.
Seja nas montanhas cobertas de neve do inverno canadense ou nas falésias e piqueniques de verão, as personagens femininas ocupam todo espaço. Em vidas que se revelam, em alguns casos, apenas no intervalo de um soluço. Histórias curtas e rápidas, dentro de um rigoroso recorte. Aos 79 anos, Alice Munro  foi vencedora, no ano passado, do Prêmio Booker, um dos mais importantes  prêmios literários atribuídos anualmente a escritores de língua inglesa. Ao lado da também  canadense Margareth Atwood, Alice é considerada um dos expoentes da literatura daquele país do extremo norte-americano, uma especialista no gênero conto.
 Suas heroínas gravitam num universo tão comum que pode até confundir o leitor, pela simplicidade, pelo inusitado ou simplesmente pelo estranhamento dos detalhes. Mulheres ainda  jovens e outras já no final da existência, saudáveis, doentes, apaixonadas, viúvas solitárias, esposas traídas, comerciantes e serventes. Alguns contos podem se resumir em apenas uma frase: “eu cresci e  hoje estou velha...” .
         Na narrativa de Alice os tempos se misturam.  Talvez com o único objetivo de mostrar a alma das personagens.  O que leva o leitor a descobrir sempre uma  outra mulher por trás daquela que se apresenta,  como se fosse a sua irmã gêmea emocional.  As tragédias surgem nas filigranas cotidianas das inúmeras dificuldades do universo feminino. Aí está o segredo das maravilhas não reveladas por Alice.
Como a surpreendente senhora Nita, do conto “Radicais Livres”. Recém curada de um câncer, ela perde o marido, vítima de um infarto. Viúva,  mergulha na inércia do dia a dia, em uma casa cheia de pequenas lembranças que compõem sua solidão.  Tenta sobreviver até que um dia, totalmente distraída, abre a porta para um homem que ela pensava ter vindo verificar um relógio de luz.
Na verdade, ele era um assassino em fuga que acabara de matar toda uma família. O diálogo entre os dois é totalmente inusitado. Ela lhe oferece comida, ouve o seu relato e, como a Sherazade das Mil e Uma Noites, começa a contar histórias na tentativa de ganhar  tempo. Depois de vencer um câncer e ficar viúva, Nita percebe, na fração de alguns segundos e diante de um assassino, que ainda quer viver.
Assim como também tenta viver a jovem mãe que perde suas três crianças assassinadas pelo marido.  Em uma nova cidade, cabelos curtos, tingidos e espetados, um emprego de camareira em um hotel onde todos desconhecem seu passado, Doree trabalha, ocupa os pensamentos.  Das cicatrizes vai cuidando com auxílio da assistente social.
Nos outros contos há crianças perturbadas (como Kent, em “Buracos-profundos”),   bizarros predadores sexuais (“Wenlock Edge”) e narradores que rememoram e  descobrem  dentro de si,  quando ciranças, a capacidade de assassinato (“Charlene em Brincadeira de Criança”).
As flutuações do desejo feminino e as relações de amor e amizade também estão presente no último conto que dá nome ao livro, “Felicidade Demais”. Aqui Alice faz um recorte nos últimos momentos de  vida  de Sophia Kovalevsky, a primeira mulher a se tornar professora universitária de matemática na Suécia no final do século XIX.
Sophia nasceu na Russia, atuou como jornalista em São Petesburgo, se consagrou na Alemanha como romancista e matemática, militou politicamente na Comuna de Paris  e conviveu com várias personalidades da época.  Alice Munro ressalta suas habilidades, revela o fervor dos exercícios matemáticos que se misturam com uma ebulição de idéias literárias.  Como em vários personagens que habitam o mundo de Alice, e ela mesma reconhece, há  também neste conto material para um romance. Que ela, habilmente, resume em menos de vinte páginas.


(Felicidade Demais  -Alice Munro
  Companhia das Letras -339 pgs)



30/12/2010

A literatura pode transformar o seu mundo?

 Coluna da Eliane Brum no site da Revista Época 27/12/2010
"Qual a importância da literatura na vida cotidiana de cada um"?

Não sou muito dada a inícios convencionais de ano. Recomeço tantas vezes num ano só e sempre em datas imprevistas que não vejo muito sentido em festejar um dia específico do calendário. E o fato de não encontrar sentido na comemoração da data não me torna nem melhor nem pior do que ninguém. Mas como de algum modo a maioria das pessoas para – ou é parada – nessa época para pensar na vida e promover um recomeço simbólico, quero dar uma sugestão. Além das metas de sempre – parar de fumar, perder uns quilos, se matricular na academia de ginástica etc etc –, minha proposta é que cada um de nós se arrisque a descobrir a literatura. Tenha a coragem de chutar para o ano que passou a surrada desculpa do “não tenho tempo para ler” e se carregar para o futuro com espaço para o novo que vem das letras. Por quê? Por nada de útil. Por tudo o que importa.
No Paiol Literário, um evento que leva a Curitiba escritores para uma entrevista pública, há uma pergunta clássica e recorrente: “A literatura é capaz de transformar o mundo?” Ela vem entrelaçada a uma outra: “Qual é a importância da literatura na vida cotidiana de cada um?”. Quem criou essas duas perguntas no início do projeto, em 2006, foi José Castello – jornalista, crítico literário, escritor e uma das pessoas mais gentis que andam por esse mundo. Depois, Luís Henrique Pellanda, também jornalista e escritor, seguiu com elas ao substituí-lo no posto de entrevistador.
Perguntei a Pellanda se ele poderia emprestar algumas respostas colecionadas ao longo dos anos para publicar aqui nesta coluna. E ele, que também é um homem muito gentil, me enviou sete. Eu escolhi as três que mais me cutucaram com um dedo delicado, mas incisivo, para compartilhar com vocês nessa conversa de virada de ano. Acho que são respostas que dão coceira na alma. E coceiras da alma, na minha opinião, só se resolvem com arte. Com literatura.
Sérgio Sant’Anna, autor, entre outros, de Um Crime Delicado e O Voo da Madrugada, ambos publicados pela Companhia das Letras, respondeu que a literatura dá ao leitor uma possibilidade imperdível: “Ler não é só adquirir conhecimento ou experiência de vida. É também a possibilidade de ter outra vida, de viver o imaginário. E não é só o escritor que tem isso. O leitor também tem. Ele é um cara que vive dupla ou triplamente”.
E, em seguida: “A literatura é um ato de prazer, que não deve ter segundas intenções. Ela dá aos leitores um espaço muito maior. Se você está lendo um livro, se vê obrigado a criar junto com ele — algo que, na televisão, não existe. Na TV, você pega as coisas mais mastigadas, uma torrente de anúncios e de segundos interesses. É muito ruído.”
Silviano Santiago, autor, entre outros, de O Falso Mentiroso e Anônimos, ambos editados pela Rocco, diz que todo leitor é também escritor. Ele afirma: “É inegável que a literatura tem uma função, assim como todas as artes têm. O primeiro cuidado a ser tomado, se a gente fala da função da literatura, é não fazer uma divisão entre produtor e consumidor. Ou seja, não fazer distinção entre escritor e leitor. Acho que a literatura tem a mesma função para ambos. Não existe um escritor que não seja leitor. Todo leitor é, por sua vez, um produtor de texto. Nós, escritores, escrevemos em uma folha de papel ou na máquina ou no computador, enquanto o leitor escreve naquilo a que os jesuítas chamavam de ‘folha de papel em branco da mente’”.
Santiago diz também que, ao ler, o leitor se apropria daquele mundo e o torna seu. Não apenas seu por estar dentro dele, mas seu como ele mesmo. “O processo de leitura é um exercício de alteridade. É você entrar em um determinado mundo que não é o seu, no qual se entra muitas vezes por um processo de surpresa. Você não esperava aquilo de maneira alguma e, de repente, entra e se encanta com aquele mundo. Quanto mais se entra naquele mundo, mais se apropria dele, mais torna aquele mundo você mesmo. O leitor sensível, inteligente, sempre conseguirá ver as relações estreitas entre aquilo que está lendo e a possibilidade de transformação, seja da realidade imediata, a realidade do mundo, seja ainda e, sobretudo, de si próprio.”
A literatura nos dá muito. Mas não promete nada. É o que disse Luís Henrique Pellanda, autor de O Macaco Ornamental (Bertrand Brasil), ao trocar de lado e responder a uma pequena entrevista para esta coluna. “A literatura não promete felicidade alguma — pelo menos não do tipo clássico, ou seja, o tipo imaginário — e não nos oferece garantias de finais felizes, nada disso. Ela nos amplia a vista de casa, nos mostra o outro — igual e diferente de nós — e exige que nos comparemos a ele, que nos analisemos e, de alguma forma, promovamos reformas internas”.
Ao responder à sua própria pergunta sobre o poder de transformação da literatura numa crônica recente, Pellanda disse lindamente: “Literatura, para mim, pode ser simplesmente a maneira como reordenamos, há milênios, as mesmas histórias, fabulação sobre fabulação, mentira sobre mentira, verdade sobre verdade, e o uso pessoal — íntimo, social, político, intelectual, espiritual — que fazemos delas. Se a literatura é capaz de mudar o mundo? Eu diria que o mundo em que vivemos, bom ou ruim, já é o mundo da literatura. Só ela dá conta das nossas histórias de amor”.
Beatriz Bracher, autora, entre outros, de Antonio e Azul E Dura, ambos publicados pela Editora 34, respondeu à mesma pergunta em duas etapas. Na primeira, no Paiol Literário, ela disse: “A arte pode transformar o mundo ou não, como muitas outras coisas, como as ideias e a política. Mas não acho que ela tenha uma proeminência nesse aspecto. Ela pode transformar o mundo simplesmente por fazer parte dele. Ela está aí. Agora, essa crença de que a arte transformaria radicalmente o mundo, que criaria um novo homem, que nos traria uma espécie de iluminação — não acredito nisso”.
“Por que é importante ler?” – ela pergunta a si mesma. “Não sei. Acho que ler um livro é importante para você não estar aqui nem agora. Para você não ser você por um tempo. Para você ser os outros e habitar outros lugares durante o tempo em que estiver lendo. E, quando você voltar ao aqui e ao agora, a você mesmo, voltará com os olhos muito mais aguçados. Eu saio de um livro sempre muito comovida, ou tocada, ou agressiva. Sempre me transformo de alguma maneira. Fala-se muito que temos uma grande afeição ao caos, que o mundo é informe e que a arte daria forma às coisas. Na verdade, temos pânico do caos. Nós não conseguiríamos viver sem alguma ordem na nossa história. E o que a literatura faz é desordenar um pouco isso, mostrar outras maneiras de organizar nossa vida”.
Beatriz foi para casa e continuou provocada pela pergunta. Enviou então um email a Pellanda. E um bem bonito: “Por que é importante ler? No nono e último círculo do Inferno, de A Divina Comédia, estão os traidores de seus hóspedes. Dante conta que eles estão perpetuamente imersos no gelo apenas com a cabeça de fora e os rostos voltados para cima, impedidos de continuarem a chorar, pois as lágrimas do ‘primeiro pranto, qual viseira de cristal’, congelam-se depois de inundar ‘do olho a cava inteira’. Fiquei pensando se a literatura também não é a possibilidade de abaixar o rosto e chorar de olhos fechados. Desprender-se de uma só dor e poder chorar, inclusive, a dor de muitos outros”.
Como se pode abrir mão de algo assim? Viver sem essa possibilidade? É Pellanda quem nos sacode: “Não ler, em muitos casos, é sintoma de preguiça e falta de condicionamento. Um mal prosaico. Muita gente não lê por levar uma espécie de vida mental sedentária. Aceitam que sua fome tão humana de fabulação seja alimentada pela TV ou pelos blockbusters e, com isso, apenas engordam sua passividade. Digo, de cara, que quem não lê perde a chance de se mostrar ativo em relação ao seu mundo e ao seu tempo. Perde vitalidade. Perde uma ótima oportunidade de se treinar para uma vida mais rica e, quem sabe, feliz”.
No Brasil, um país onde se lê tão pouco e onde metade dos adolescentes tem dificuldades para interpretar um texto, acredito que é preciso profanar a literatura. Aprendi isso com o poeta Sérgio Vaz, criador da Cooperifa, o maior sarau de poesias do país. Os livros precisam deixar de ser sagrados e virar matérias das ruas, tocados por muitas mãos, marcados por lágrimas, suor e gordura. Antes de iniciar a leitura, é preciso apalpar, cheirar, bolinar o objeto que contém a história – ainda que isso seja feito virtualmente. É importante perder o medo dos livros, um excessivo respeito. Incinerar para todo o sempre a ideia de que a literatura é território restrito dos que supostamente sabem mais e torná-la matéria permanente das nossas vidas. Espécie de feijão e arroz da alma.
Não importa o que você lê nesse primeiro movimento, importa que você comece a ler. Leia por prazer. Leia por temor. Leia por coragem e por inocência, fingindo desconhecer que não será o mesmo depois do ponto final. Ninguém precisa começar lendo Proust – nem mesmo precisa ler Proust alguma vez na vida, embora eu ache que vale a pena. Leia aquilo que lhe dá prazer – ainda que seja um prazer vindo do incômodo – e crie uma história só sua com os livros, movida pela sua própria busca. Vá à livraria ou à biblioteca como se fosse a uma festa de gente desconhecida – e até esquisita – e veja com quem tem afinidade, quem lhe sorri, mostra a língua ou um naco da coxa.
O melhor da literatura é que ela não nos dá nenhuma resposta. Nos dá algo muito melhor: nos dá novas perguntas. Perguntei a Pellanda de onde veio a indagação que motivou este texto. Ele respondeu: “De onde vem uma pergunta? De nossa compulsão por saber das coisas, uma compulsão imortal, que nunca será saciada, pois jamais saberemos de nada. E não é ela, essa incerteza sedutora, que nos leva a escrever e a ler? Já se tornou um clichê dizer que a boa literatura não nos responde coisa alguma, e que somente nos faz mais perguntas, apenas perguntas, e irrespondíveis. É um lugar-comum, ok, mas está correto. A última frase de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, é uma pergunta e a usei como epígrafe de meu primeiro livro de ficção. Depois de mais de oitocentas páginas, não se conclui nada, e o narrador de Mann se pergunta: ‘Será que também da festa universal da morte, da perniciosa febre que ao nosso redor inflama o céu desta noite chuvosa, surgirá um dia o amor?’. Será? Não sabemos. Não há resposta possível, nunca houve. E a literatura é isso, fazer as perguntas difíceis, às vezes as constrangedoras. Como aquelas que as crianças nos fazem”.
Para mim não há vida sem literatura. E mais tarde, num outro dia, darei minha própria resposta à pergunta maior do Paiol Literário. Por enquanto, desejo a você que, em 2011, se arrisque mais. Leia. Se já tem intimidade com os livros, aprofunde-a. Tente um território novo. Fale sobre livros em vez de falar mal do chefe, do vizinho, do colega. Faça um favor a si mesmo: prometa que, no novo ano, jamais dirá que não tem tempo para ler.
Talvez a gente nunca saiba se a literatura é capaz de transformar o vasto mundo de fora. Mas podemos nos arriscar a descobrir – e esta é uma tarefa pessoal e intransferível – se a literatura é capaz de transformar o nosso mundo. O meu, o seu. Acredito profundamente que sim. Se tivermos a coragem de tentar, o mundo de dentro vai se alargar. E andaremos por aí carregando nosso próprio horizonte.
Termino com mais algumas ótimas frases de Luís Henrique Pellanda. E as pego emprestadas como meus votos de Ano-Novo:
– Quer dizer, você sabe ler e não lê? Onde é que você está com a cabeça? Achou seu espírito no lixo? Leia. Aproveite.

28/12/2010

Bibliotecas da Colômbia, exemplos para o Brasil





Enviado por Mara Bergamaschi*, de Bogotá,
Publicado em O GLOBO - 25.12.2010 | 09h15m


El Tunal é longe: há mais de uma hora passam favelas ao longo das duas pistas, mão e contramão, ao sul de Bogotá. De um lado, casas de tijolos claros, sem reboco, já não cabem na planície: aproximam-se da cordilheira e misturam-se com ela, bordando o sopé da montanha com tons mais leves de marrom. Parecem esculpidas na terra, arqueológicas. Do outro lado, sem a muralha, construções espraiam-se a perder de vista. A tarde ainda está pelo meio, mas há pouca luz e faz frio. O céu está nublado, a garoa vai e vem. Penso que é pior viver ali, sob aquele insano equatorial-de-altitude, do que nas favelas do Rio: pelo menos no balneário tropical há sol, céu azul e, em alguns casos, até a vista esplêndida da baía e das praias. Em Bogotá, alternam-se, em fração de horas, calor-frio-secura-vento-chuva, com vantagem inequívoca, a 2.600 metros, para a friagem. Sob os Andes, o clima é rude para humanos, mas ótimo para plantas, que vicejam e florescem, como se cultivadas em estufas. De cima, do avião, os vales rurais da Colômbia não são verdes; são verdíssimos, de todos os matizes. Mas ali, onde se estende parte da imensa periferia urbana, ocupada por três dos oito milhões de habitantes da capital, quase não há mais vegetação. Quase: quando surge um espaçoso gramado com árvores esparsas, chegamos. Eis enfim a Biblioteca Pública Parque El Tunal, com seu grande rabo de baleia — escultura no espelho d’água da fachada que é também a logomarca da instituição.


Autores brasileiros são populares no país


Mal entramos e o diretor, de gravata, já está a postos para mostrar o local aos mais de 50 brasileiros, professores da rede pública, em sua maioria. Professoras, na verdade. Há somente meia dúzia de rapazes. O grupo está ali por ter se destacado com experiências inovadoras de leitura em suas escolas. Alguns projetos são mais do que criativos: Malvão, o único professor de 48 crianças e adolescentes de uma isolada comunidade caiçara de Paraty, instalou uma biblioteca num rancho de pesca, onde se guardam barcos e canoas. Todos os dias, ele pega um ônibus, uma van e um bote para dar aulas. Quando o mar encrespa, caminha por duas horas e meia pelas trilhas. Seus colegas enfrentam outras adversidades. Muitos trabalham em periferias semelhantes a que acabamos de atravessar. Outros têm mais sorte: dão aulas em escolas bem equipadas e localizadas. Mesmo esses nunca viram bibliotecas públicas como as da Colômbia. A espetacular Virgílio Barco, visitada no dia anterior, fez todos entenderem porque Bogotá, sede de um Estado convulsionado há décadas por combates entre guerrilheiros, paramilitares, narcotraficantes e soldados, foi declarada pela Unesco Capital Mundial dos Livros em 2007. Mesmo em guerra, a pátria de Gabriel García Márquez lê — atividade que talvez mais convide ao silêncio e à paz. E conhece bem a literatura infantojuvenil brasileira. Autores como Ana Maria Machado, Lygia Bojunga, Ângela Lago, Nilma Lacerda, Bartolomeu Campos de Queirós, Marina Colasanti, traduzidos desde os anos 1980, são considerados fundamentais para a renovação do gênero na Colômbia. Roteiro melhor, ainda que exija um pouco de coragem, não poderia haver para os professores premiados pelo Concurso Escola de Leitores, organizado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e Instituto C&A.

Na Bogotá vez por outra aterrorizada por carros-bombas, as bibliotecas estão vivas. Inclusive as localizadas nas áreas mais pobres e violentas. O diretor Róbinson Areliano que o diga. Versão mais modesta da nave-mãe Virgilio Barco, El Tunal, a terceira maior, por onde passam em média 4 mil pessoas por dia, tem excesso de demanda: recebe três vezes mais crianças do que comporta. Bayron Vargas tem dez anos e é frequentador assíduo. Com nome de poeta, segue seu destino, entre livros.

— Gosto das histórias, dos trabalhos, de tudo, por isso venho todo o dia — diz.

Para acomodar tanta gente, os 63 funcionários precisam reinventar o espaço.

— Nos fins de semana, montamos tendas e guarda-sóis no parque para pais e filhos — diz o diretor, também bibliotecário.

Róbinson, que deve estar na faixa dos 40, é igualzinho à maioria dos seus conterrâneos, mestiços de brancos e índios. Mas há algo diferente, que o faz se parecer mais com os brasileiros: ele é sorridente. De maneira geral, os bogotanos se mostram gentis, mas fechados. As mulheres, mesmo jovens, costumam ter um olhar assustado. É que quase todo mundo tem uma história brutal para contar, que vitimou gente distante ou próxima. Os períodos de trégua, como o vivido atualmente, parecem insuficientes para revogar o semblante sério. Que se repete, identifico agora, em todas as figuras redondas, supostamente divertidas, de Botero: no Museu, nenhum de seus retratos sorri, nem incognitamente (exceção aberta só mesmo na sua versão da Monalisa). O que o artista capturou de seu povo, que aliás nada tem de obeso, foi, deduzo, esse deficit de alegria. Anti-Botero total, magro e feliz, Róbinson defende que os livros ajudem a conduzir os niños ao mundo da imaginação e da fantasia.

— Não queremos oferecer o que já vivem nem recordar a dureza de seu ambiente — diz, nas salas decoradas com dragões feitos pelos estudantes.

“Então as crianças não vão falar de suas vivências?”, questiona na mesma hora a bibliotecária Silvia Castrillón, organizadora do périplo dos brasileiros. Envolvida há anos nos movimentos sociais pró-leitura, diz que El Tunal é o seu projeto favorito.

— Aqui, a comunidade está presente — justifica.

Mesmo assim não deixará passar em branco suas divergências. Ao contrário de Róbinson, Silvia não exalta o lúdico: considera a relação com os livros um prazer que se conquista com algum esforço, em todas as idades. Suas convicções, que agradaram os professores brasileiros, são firmes: não existe leitura sem debate e sem escrita. E não haverá aluno-leitor sem que haja antes professor-leitor. Engajada, a senhora grisalha, que já teve cargos estratégicos em governos e no mercado editorial, continua disposta a consertar tudo. Deplora a “moda das bibliotecas escolares” que não colocam a literatura, a palavra, no centro do trabalho. E critica a escola colombiana por não fazer frente aos problemas do país:

— Não falam da violência nem da guerra.

O feijão ou o sonho? Quem venceria a batalha em El Tunal, nos supostos domínios do reino encantado, seria a dura realidade. E de forma surpreendente. Alguém já imaginou se aproximar de painéis coloridos, com aplicações costuradas a mão, e ver cenas de assassinato e sequestro, cadáveres e sangue, crianças e mães em fuga, além de um povoado destruído por homens armados? A narrativa completa de um desplazamiento (êxodo forçado), imposto por paramilitares à comunidade de Mampuján, em 2000, foi registrada por 15 mulheres sobreviventes. Estima-se que 10% da população do país — mais de quatro milhões de pessoas — tenha sido desalojada pelos conflitos. A primeira reação àquela estética do paradoxo é o choque: como pode o horror ser mostrado com tanta delicadeza?

— Há algo de punk no ar — resume Patrícia Lacerda, especialista em educação, coordenadora do Concurso de Leitores.
Sua impressão seria reforçada pela leitura de títulos infantojuvenis de sucesso local. Em um deles, Chapeuzinho Vermelho simplesmente envenena o Lobo Mau com um caramelo. E diz no final: “como és inocente!”


Bibliotecas colombianas impressionaram Vargas Llosa

Hoje no comando da Asolectura, ONG que responde por 40 Clubes de Leitores, Silvia Castrillón conhece e acompanha o mercado contemporâneo. Mas sem perder jamais suas referências: é fã da pedagogia do oprimido de Paulo Freire, que cita sempre. E de vários escritores brasileiros: muitos dos que são populares entre nossos hermanos foram editados e algumas vezes traduzidos por ela. Também levou e conseguiu implantar em seu país propostas — como o fundo das editoras em favor da leitura —, inconclusas há anos no Brasil. Nossa anfitriã em Bogotá tem, portanto, fortes e antigos laços conosco. A secretária-geral da FNLIJ, Beth Serra, é testemunha disso:

— É incrível, mas Silvia pegou ideias, levou e fez antes de nós.

Os esforços educacionais do país para elevar o status da literatura e popularizar os livros ganham cada vez mais visibilidade. Mesmo distante, a biblioteca El Tunal já consta dos roteiros turísticos internacionais e vem atraindo gente famosa. Róbinson, que está lá desde o começo, há nove anos, não nos conta, mas o escritor peruano Mario Vargas Llosa, que conquistou o Nobel de Literatura em 2010, esteve lá. Ficou tão impressionado que seu verbete sobre a Colômbia, no “Dicionário Amoroso da América Latina”, de 2005, é dedicado unicamente às bibliotecas de Bogotá. “São autênticos eixos da vida comunitária desses bairros humildes, onde vão as famílias em suas horas de lazer, porque nesses locais e ao seu redor, velhos, crianças e jovens se divertem, se informam, aprendem, sonham, melhoram e se sentem participantes de uma iniciativa comum”.

No gramado da biblioteca, meninos uniformizados empinam seus “cometas” coloridos contra o céu cinza. Aproveitam os bons ventos. Quando saímos, os pingos de chuva voltam a cair. As crianças correm. Se precisarem, o refúgio está bem ali. Em tempos de guerra e paz. 

* MARA BERGAMASCHI é jornalista e escritora

20/11/2010

Flor de Cacto

Flor de Cactos - foto de Mara Bergamaschi




Flor de cacto, flor que se arrancou
À secura do chão.
Era aí o deserto, a pedra dura,
A sede e a solidão.
Sobre a palma de espinhos, triunfante,
Flor, ou coração?

José Saramago

14/11/2010

Simone e Virgínia: preciosas releituras

Simone em sua mesa de trabalho
Publicado no jornal Correio Braziliense em 23/10/2010
Virgínia em diferentes momentos
                  Elza Pires de Campos

“A Casa de Carlyle”, de Virginia Woolf, e “A Mulher Desiludida”, de Simone de Beauvoir, inauguram a coleção Fronteira,* da editora Nova fronteira, a preços acessíveis.
A meta é abrir espaço para clássicos e resgatar obras há tempos esgotadas.


Em “A Casa de Carlyle”, os seis contos foram escritos em 1909, recuperados depois de anos deixados em uma gaveta de uma jovem que datilografava os manuscritos da escritora. Vieram a público recentemente, em 2003. Preciosidade de uma Virgínia Woolf então com vinte e sete anos. Não por acaso, em um dos contos ela descreve, num texto curto e surpreendente, a cena banal de uma vara de família em que um casal se separa. Na Inglaterra vitoriana da época, em que as jovens da burguesia eram mães antes dos vinte, Virgínia ainda não decidira se casar.
Transgredia ganhando a vida dando aulas à noite para adultos, num período em que as mulheres, além de não trabalhar, não podiam votar ou frequentar universidades. Virgínia estudou em casa, na biblioteca do pai. Naquele ano recebera uma proposta de casamento. No último conto deste livro, “Vara de Família”, um homem e uma mulher, que se odeiam e se magoam profundamente, buscam a separação diante do juiz. No curto esboço de duas páginas, e nos demais seis contos, está resumido tudo o que interessa e vai interessar Virgínia pelas próximas décadas da sua vida de escritora. O eu e o nós, pensamentos e sensações, a sonoridade das frases, os olhares, as minúcias, tudo tão simples mas que diz tanto, como, por exemplo, o frio que corta ou a lama que entra pelos sapatos. Nestes seis fragmentos esquecidos e tão antigos é possível vislumbrar a Virgínia exploradora que foi da alma humana.
Já Simone de Beauvoir, em “A Mulher Desiludida”, solta em cena a loucura e o medo das suas personagens femininas. Em três contos distintos - um diário, um monólogo e um manuscrito -, o espaço da narrativa pertence a três mulheres. O que as entrelaça é que são todas desiludidas. A faixa etária está entre quarenta e cinqüenta anos, quando já estão no desalento de uma vida em que a juventude e a beleza lhes escapam, o amor não aconteceu, e provavelmente jamais aconteça, os filhos estão criados, o trabalho se repete e a profissão, onde a criatividade acabou, não dá o menor prazer .
Uma delas, militante política e professora, fez com que o filho seguisse seus passos profissionais. Projetava no garoto tudo que não fizera, até que ele cresce e passa a ter luz própria. Daí em diante ela, a mãe, delira e não consegue deixar que ele se vá. Insiste em continuar orientando, mandando, determinando o que o jovem, casado, deve fazer da sua vida. Sem perceber, torna-se infeliz e deixa mais infeliz ainda aquele a quem tanto ama. A outra personagem, do segundo conto, cultiva um monólogo para se esquecer das brigas diárias com a filha adolescente.
O terceiro conto, que dá nome ao livro, revela a mulher que, com medo de acabar com o longo casamento que já acabou, finge não se incomodar que o marido tenha uma amante. Convive com a situação e se violenta. Para desabafar, escreve um diário.
“Procurei transmitir aos meus leitores algumas experiências das quais participei de forma direta ou indireta”, explicou Simone na época do lançamento do livro, no início dos ano 70, ao lembrar que havia recebido confidências de várias mulheres, algumas abandonadas pelos maridos ou companheiros. Observara pontos em comum entre elas e resolveu reunir parte daquelas histórias em um livro.
Nos pormenores destas três histórias, salpicadas de fatos reais, Simone resgata um aforismo que a deixou famosa na década de sessenta, bandeira do hoje  já embolorado movimento feminista: “Não nascemos mulheres, nós nos tornamos". Boa frase para se lembrar no momento em que a campanha eleitoral fervilha em torno do aborto. Não custa nada acrescentar que as duas --Simone e Virgínia -- lutaram pelo direito de escolher ter ou não ter filhos, um dos temas que impulsionou o feminismo em passeatas, isto no mínimo há quatro décadas.
* já se encontram também disponíveis na mesma coleção Corpo de Baile de João Guimarães Rosa; A escrava que não é Isaura, de Mário de Andrade;A cinza das Horas, de Manuel Bandeira; Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues e Morte em Veneza de Thomaz Mann.

18/10/2010

O Acidente

Elza Pires de Campos - Publicado no Correio Braziliense 
Kadaré, autor de Abril despedaçado
A Albânia ou o abismo? Uma história de amor ou uma investigação policial? Ismail Kadaré edifica uma teia de inusitadas situações em seu último romance, O acidente. Habituado a revestir suas histórias de cenas políticas, Kadaré mantém o mesmo viés de denúncia de outras obras suas, mas parte desta vez de um fato banal. Pelo retrovisor de um táxi a imagem de um casal que tenta se beijar acaba provocando um acidente fatal. É o passado e o presente. A realidade que escapa sob um frio intenso, neblina e chuva. O carro mergulha no abismo, ambos morrem e o motorista, que teve a atenção desviada ao observar a cena do abraço, sobrevive. Fica o trauma. Aquela tentativa de beijo não lhe sai mais da cabeça.

O acontecimento tão insignificante não valeria nem mesmo uma investigação. Menos ainda um romance. Mas Kadaré, logo nas primeiras páginas do livro, instala a confusão na cabeça do seu próprio leitor ao deixar escapar uma informação importante: o homem que tentava beijar a moça, Bessfort Y, era diplomata, analista, colaborador do Conselho da Europa sobre questões dos Bálcãs ocidentais, e havia trabalhado contra a Iugoslávia. Ele fora julgado no Tribunal de Haia.

As 40 semanas anteriores ao acidentes são esmiuçadas na investigação. Engenhoso, Kadaré faz uma narrativa da narrativa. Este é o material que dá suporte ao romance. O que não significa monotonia na leitura. Aliás, muito pelo contrário. O texto é rico em detalhes, as confidências noturnas de dois amantes, testemunhas contraditórias, enfim, miudezas que longe de esclarecer, turvam e embaralham o curioso leitor até o fim do livro.

A jovem Rovena era realmente uma estudante apaixonada por Bessfort Y, ou seria uma garota de programa que estivera com ele algumas vezes? Por que eles tentavam se abraçar ali, naquele táxi, rumo ao aeroporto, numa estrada dos Bálcãs? A pianista, amiga de Rovena e sua amante seria uma testemunha-chave? O motorista realmente nada sabia? Ou era um cúmplice? O que haveria por trás daquele abraço e tentativa de um beijo? Se o amor é tirano ele também pode levar à morte?

Há ainda fábulas e referências às cantigas épicas balcânicas cujos conteúdos Kadaré transforma em metáforas na frenética tentativa de entender a realidade. Afinal, a busca de analogias com o passado da Albânia, as tragédias gregas e a pesquisa incessante acompanham o trabalho de Kadaré. Em Abril despedaçado, que inspirou o filme homônimo de Walter Salles, Kadaré traz de volta o Kanum, código que regulamenta os crimes de sangue na Albânia e mesmo que não tenha equivalente no Brasil, Salles adaptou-o a uma briga de famílias no sertão nordestino.

As perguntas, em circunlóquio, mantêm o leitor atento. Afinal de contas, mais do que uma reflexão sobre a tirania de um governo, a pressão e a opressão, estão em jogo também a tirania do amor, o ciúme, as relações paralelas e, finalmente, a cumplicidade de dois amantes. Rovena sabia das ações de Bessfort Y? Até que ponto, nas conversas da madrugada, ele não revelara as pressões políticas às quais estava submetido, os golpes e contra-golpes do governo albanês?

Kadaré vive hoje entre Paris e Tirana, na Albânia, e reconhece que a literatura foi sua principal aliada nos piores momentos da ditadura política de seu país. Isso antes de se tornar famoso, ter seus livros publicados em diversas línguas e, pelo mesmo motivo, conseguir deixar a Albânia. Ao lembrar que ser um escritor famoso dentro de um país stalinista significa ser duplamente culpado, Kadaré afirmou certa vez: “Meus amigos franceses daquela época, sempre através da imprensa, faziam perguntas sobre mim e o meu paradeiro na Embaixada da Albânia. Assim dirigiam recados ao governo e isso me ajudou bastante contra algum eventual acidente”. 


Fogo amigo mostra habilidade de israelense em fazer quebra-cabeça narrativo


Publicação: 16/10/2010 
Elza Pires
Especial para o Correio



Fogo amigo De A. B. Yehoshua. Companhia das Letras, 400 páginas. R$ 54,50














Considerado, ao lado de Amon Oz e David Grossman, um dos principais representantes da literatura israelense na atualidade, Yehoshua nasceu em Jerusalém em 1936. E, assim como seus dois compatriotas escritores de um país em guerra, busca nos temas do cotidiano a carga emocional suficiente para enviar aos leitores o seu recado político: "Períodos de sofrimento criam grandes momentos literários",  explica ele, professor de literatura na Universidade de Haifa desde 1972.

Mais do que um romance, este livro, segundo o próprio Yehoshua, foi escrito na forma de um dueto. Duas vivências simultâneas, um homem e uma mulher, num período de poucos dias e mudanças sensíveis em suas vidas. O autor sutilmente monta uma espécie de quebra-cabeças ao longo do livro. Além de repassar todas as conexões destas peças ao leitor, também deixa a narrativa por conta do casal de judeus que, entre cansados e emocionados, se despede no aeroporto de Tel-Aviv. Ele fica na cidade. Ela vai para a África.

Ao longo da história há uma espécie de diálogo inconsciente entre os dois personagens principais. Ambos de meia-idade — Daniela e Yaári — com filhos criados e netos, eles se separam durante o feriado judaico de Hanucá, uma celebração de 8 noites, tradição de mais de dois mil anos. Enquanto ele trabalha em Tel-Aviv, cuida do velho pai doente, e se ocupa da família, ela segue para a Tanzânia, no continente africano. Vai para uma outra realidade, um projeto da Unesco, um acampamento de antropólogos e arqueólogos que buscam a ligação entre o homem e o macaco.

Daniela decide encontrar o cunhado — Jeremias, o pai do soldado morto pelo fogo amigo — que ela não via desde a morte da irmã, há dois anos, e se mudara para a Tanzânia. Daniela, que viajara para relembrar a irmã, acaba se envolvendo mais do que queria com a dor e as angústias do cunhado. Sua transformação interior em poucos dias é tão surpreendente que ela, sob o risco de ser presa, volta a Israel trazendo em sua nécessaire alguns ossinhos encontrados nas escavações da equipe de pesquisadores na Tanzânia e que precisam ser identificados por especialistas israelenses.

Humor

Aqui um exemplo curioso do viés de humor que acompanha a narrativa de Yehoshua. O instituto Abur Kabir, principal centro de medicina legal do País e um dos mais importantes do mundo, situado em Tel Aviv, é o único nome árabe que restou na região após a criação do Estado de Israel. A palavra Abur Kabir — que segundo Yehoshua foi provavelmente uma aldeia árabe destruída durante a guerra — tornou-se a referência na identificação dos restos das vítimas dos atentados terroristas. É para este instituto que, clandestinamente, Daniela encaminha os ossinhos dos macacos para serem identificados. Aliás, o fogo e toda a sua simbologia estão presentes em vários momentos do livro. Na Tanzânia, Daniela se surpreende com o azulado da chama que brilha diariamente, mesmo sob o calor intenso, porque as famílias mantêm aceso o chamado fogo perpétuo. O mesmo fogo está também entre os antropólogos, como elemento que diferencia o homem do primata. Naquele instante, em Tel-Aviv, transcorrem as bênçãos e velas acesas todos os dias do feriado de Hanucá.

Ao situar sua narrativa na delicada fronteira da relação entre homem e mulher, Yehoshua convida o leitor a refletir também sobre os limites de uma guerra, os custos pessoais imensos da luta do povo judeu — de origem nômade, que sempre sobreviveu sem fronteiras e se espalhou pelo mundo — e agora luta para continuar na busca de um limite territorial.
Yehoshua, um dos principais nomes da literatura israelense: uso de simbologia e convite à reflexão