| Theo, no dia do aniversário de um ano. Devorando um osso. foto Thomaz Pires |
Literatura e Jornalismo- "De tudo que escrevo, noventa por cento é invenção. Só dez por cento é mentira" Manoel de Barros
15/07/2010
Dois andares abaixo do meu (texto do Blog da Eliane Brum)
Reproduzo o texto publicado no Blog da Eliane Brum. Serve como reflexão sobre envelhecimento e solidão. Quando morei na França, na década de 1980, vi várias situações como esta, descrita abaixo de forma tão comovente....
ELIANE BRUM
Reprodução
ELIANE BRUM
ebrum@edglobo.com.br
Eu nunca tinha ouvido falar dela. Vivo neste edifício de 70 apartamentos há alguns anos. A maioria dos moradores só encontro na reunião de condomínio. Há o velho que toma sol pela manhã e que me cumprimenta sorridente porque lá em casa a gente se dá tchau na janela quando alguém sai. Ele acha curiosíssimo e acompanha o ritual enternecido. Há as mulheres que passeiam com os cachorros, e as que fiscalizam o crescimento das roseiras do jardim. Existe a vizinha que sempre tenta me vender produtos de beleza. E o Pedrão, um aumentativo irônico para um cachorro tão pequeno, tão desmilinguido e cego pela idade, que sobe e desce o elevador comigo, protegendo com olhos erráticos um dono que é quase um gigante. Há o vizinho de passo marcial que não cumprimenta ninguém. E ela, que morava lá havia uma eternidade, mas a quem eu nunca vira.
Numa tarde vêm o chaveiro, os bombeiros e a polícia. Arrombam a porta do apartamento. E somos todos lançados para dentro de uma paisagem muito semelhante à nossa, mas que era dela. As histórias de sua vida me alcançam aos farrapos. Aos 82 anos ela vivia só. Tinha sido médica, com consultório no centro de São Paulo. Era uma mulher independente, que veio do interior para vencer na cidade grande quando as mulheres de sua geração apenas recolhiam os passos até a casa do marido. Viajou o mundo, falava várias línguas, expressas nos livros espalhados pela casa. Não sei de seus amores, ninguém ali sabe. De repente, ela descobriu-se só. Não queria morrer, só não sabia como seguir vivendo. Resistiu viva – morrendo.
Há dois anos ela estacionou sua Brasília vermelha meticulosamente limpa e bem conservada numa vaga tamanho G. E nunca mais a tirou de lá. Poderia ter sido um sinal, mas um sinal só se torna um sinal se for decodificado. Este gerou apenas uma multa do condomínio. O carro deveria estar numa vaga M. Talvez P. Há pouco mais de um ano ela deixou de pagar a conta do condomínio. O acúmulo da dívida virou um processo judicial e uma primeira audiência a qual ela não compareceu. Outra pista não decifrada.
A vizinha do lado percebeu que ela não mais saía de casa. Insistiu com o síndico, com o zelador, algo estava errado. Ela nem atendia mais a porta, e um cheiro novo se impregnava no corredor. Mas a lei não escrita da cidade grande determina não perturbar a privacidade de ninguém. Cada um é uma ilha – ou um apartamento. Proprietário-indivíduo de seu número de metros quadrados aéreos no mundo. Os funcionários do condomínio devem avisar pelo interfone quando vão entregar uma correspondência que precisa ser assinada porque, do contrário, muitos moradores sequer abrem a porta. E ela era conhecida como “a doutora”, o título um abismo que ela e tantos se esforçam para cavar. Ninguém ousou perguntar se algo diferente, algo pior, estava acontecendo com ela.
Naquela tarde a conhecida de uma associação onde ela trabalhava como voluntária veio procurá-la, preocupada com seu sumiço. Ela então conseguiu se arrastar e sussurrar que não tinha forças para abrir a porta. Quando a porta caiu, e os fossos foram transpostos, descobriu-se que havia dois meses ela vivia no escuro, à luz de velas primeiro, nada depois. A energia elétrica tinha sido cortada por falta de pagamento. Há semanas ela não comia. Já não podia andar. A doutora estava morrendo de fome em meio a centenas de pessoas na cidade de milhões. Em sua própria sujeira.
Num prédio de classe média de São Paulo, ela estava mais isolada que qualquer ribeirinho dos confins da Amazônia. Não queria que descobrissem que havia perdido o controle da sua vida. E quando quis pedir ajuda, já não teve forças. Imagino quanto desespero sentia para conseguir romper as amarras de toda uma existência, se arrastar até a porta e admitir que não era mais capaz de abrir. Foi levada ao hospital, onde agora briga para viver.
Ela morava dois andares abaixo do meu. Quando eu soube, fiquei rememorando os últimos meses. Enquanto eu trabalhava, cozinhava, bebia vinho, tomava chimarrão, gargalhava, assistia a filmes, me emocionava com livros, me indignava com acontecimentos, conversava, namorava, sonhava, fazia planos, escrevia esta coluna e às vezes chorava, dois andares abaixo do meu, num espaço igual ao meu, uma mulher de 82 anos morria de fome nas trevas, em abissal solidão.
Enquanto eu ria, ela morria. Enquanto eu comia, ela morria. Enquanto eu sonhava, ela morria. No escuro, ela morria no escuro enquanto eu abanava da janela, o velho sorria ao sol, uma vizinha tentava me vender um novo creme antirrugas e Pedrão rosnava cegamente no elevador sob o olhar terno de seu gigante.
Não consegui dormir por algumas noites porque me via arremessada ao outro lado da rua, tentando imaginar os enredos que se passavam atrás das cortinas daqueles outros 69 apartamentos. Que vidas são aquelas, que dores se escondem, quais são os dramas que sou impotente para estancar? Anos atrás, antes de eu morar no prédio, um homem se lançou pela janela e morreu estatelado na laje. Como tantos o tempo todo. Um soluço apavorante na rotina e depois o esquecimento. Como agora, nesse morrer sem sangue e sem alarde.
Numa fissura do tempo algo que não pode mais ser oculto se revela – revelando também o nosso medo. Portas são derrubadas, cortinas rasgadas por um corpo que se lança para o nada, para nós. E, talvez pior, por um corpo que se esconde até ser exposto pelo cheiro da decomposição ainda antes da morte, corroendo os muros de nossa privacidade protegida com tanto empenho. Como a dela.
Depois precisamos esquecer para seguir vivendo. Mas não consigo esquecer. O que aconteceu com ela está acordado dentro de mim como um bicho. Dentro de nós também há um condomínio onde portas se fecham, chaves se perdem e o suicida que nos habita se lança no vazio enquanto outros em nós se decompõem em vida pela morte dos dias que não acontecem. Mergulho então, além dos dois que nos separavam, vários andares em mim. E lembro-me de Mário Sá-Carneiro, escritor português: “Perdi-me dentro de mim porque eu era labirinto. E hoje, quando me sinto, é com saudades de mim”.
Acredito que todos no prédio ficaram chocados, cada um à sua maneira. Porque ninguém percebeu a tempestade logo ali. Porque tudo se passou enquanto no avesso de cada janela tentávamos viver. Mas também – e talvez principalmente por isso – porque a tragédia se desenrolou no mesmo cenário onde tecemos o enredo de nossos dias.
O apartamento dela é igual ao nosso. Esta semelhança de condições e de arquitetura, de portas e de janelas, nos provoca um incômodo difícil de dissipar. Poderia ser nós a morrer de fome no escuro. Mesmo com uma história diversa, lá no fundo cada um de nós sabe que a solidão nos espreita. Que não estamos tão protegidos como gostaríamos. Seria mais fácil afastar nosso horror se fosse um assassino, uma morte por ciúme, uma violência cometida por um psicopata. Isto está sempre mais longe. Mas não. A doutora morria logo ali por solidão. E isto está bem perto.
Ela não viveu uma vida à toa. Ou uma vida egoísta. Ela apenas viveu mais tempo do que a maioria de seus amigos, que deve ter sepultado um a um. Mais tempo que os pacientes que tantas vezes salvou, e então o consultório ficou vazio. Ela tinha bens que poderia ter vendido quando ficou restrita a uma renda que não lhe permitia manter o padrão. Mas não tinha mais saúde para fazer o que era preciso. Com o tempo, não conseguia mais nem caminhar até o banco para buscar o dinheiro da aposentadoria ou pagar a conta de luz ou qualquer outra. Lentamente os fios de sua vida foram lhe escapando das mãos. E, no fim, quando percebeu que precisava romper o pudor cimentado nela e pedir ajuda, já não era capaz de andar pela casa para abrir a porta da rua e escancarar sua miséria. A doutora não queria morrer, só não tinha forças para viver neste mundo.
Por um tempo fiquei acordada pelas madrugadas, dormindo nas auroras, aterrorizada com as vidas desconhecidas abaixo e acima de mim, com os socorros que eu não sabia que precisava prestar, com o monstro de olhos abertos em mim. Devagar, comecei a pensar nas minhas escolhas. E agora tento aprender a amar melhor, para além das paredes de meus metros quadrados de mundo, mais iguais às dela do que eu e todos gostaríamos.
ELIANE BRUM
Reprodução
ELIANE BRUM
ebrum@edglobo.com.br
Eu nunca tinha ouvido falar dela. Vivo neste edifício de 70 apartamentos há alguns anos. A maioria dos moradores só encontro na reunião de condomínio. Há o velho que toma sol pela manhã e que me cumprimenta sorridente porque lá em casa a gente se dá tchau na janela quando alguém sai. Ele acha curiosíssimo e acompanha o ritual enternecido. Há as mulheres que passeiam com os cachorros, e as que fiscalizam o crescimento das roseiras do jardim. Existe a vizinha que sempre tenta me vender produtos de beleza. E o Pedrão, um aumentativo irônico para um cachorro tão pequeno, tão desmilinguido e cego pela idade, que sobe e desce o elevador comigo, protegendo com olhos erráticos um dono que é quase um gigante. Há o vizinho de passo marcial que não cumprimenta ninguém. E ela, que morava lá havia uma eternidade, mas a quem eu nunca vira.
Numa tarde vêm o chaveiro, os bombeiros e a polícia. Arrombam a porta do apartamento. E somos todos lançados para dentro de uma paisagem muito semelhante à nossa, mas que era dela. As histórias de sua vida me alcançam aos farrapos. Aos 82 anos ela vivia só. Tinha sido médica, com consultório no centro de São Paulo. Era uma mulher independente, que veio do interior para vencer na cidade grande quando as mulheres de sua geração apenas recolhiam os passos até a casa do marido. Viajou o mundo, falava várias línguas, expressas nos livros espalhados pela casa. Não sei de seus amores, ninguém ali sabe. De repente, ela descobriu-se só. Não queria morrer, só não sabia como seguir vivendo. Resistiu viva – morrendo.
Há dois anos ela estacionou sua Brasília vermelha meticulosamente limpa e bem conservada numa vaga tamanho G. E nunca mais a tirou de lá. Poderia ter sido um sinal, mas um sinal só se torna um sinal se for decodificado. Este gerou apenas uma multa do condomínio. O carro deveria estar numa vaga M. Talvez P. Há pouco mais de um ano ela deixou de pagar a conta do condomínio. O acúmulo da dívida virou um processo judicial e uma primeira audiência a qual ela não compareceu. Outra pista não decifrada.
A vizinha do lado percebeu que ela não mais saía de casa. Insistiu com o síndico, com o zelador, algo estava errado. Ela nem atendia mais a porta, e um cheiro novo se impregnava no corredor. Mas a lei não escrita da cidade grande determina não perturbar a privacidade de ninguém. Cada um é uma ilha – ou um apartamento. Proprietário-indivíduo de seu número de metros quadrados aéreos no mundo. Os funcionários do condomínio devem avisar pelo interfone quando vão entregar uma correspondência que precisa ser assinada porque, do contrário, muitos moradores sequer abrem a porta. E ela era conhecida como “a doutora”, o título um abismo que ela e tantos se esforçam para cavar. Ninguém ousou perguntar se algo diferente, algo pior, estava acontecendo com ela.
Naquela tarde a conhecida de uma associação onde ela trabalhava como voluntária veio procurá-la, preocupada com seu sumiço. Ela então conseguiu se arrastar e sussurrar que não tinha forças para abrir a porta. Quando a porta caiu, e os fossos foram transpostos, descobriu-se que havia dois meses ela vivia no escuro, à luz de velas primeiro, nada depois. A energia elétrica tinha sido cortada por falta de pagamento. Há semanas ela não comia. Já não podia andar. A doutora estava morrendo de fome em meio a centenas de pessoas na cidade de milhões. Em sua própria sujeira.
Num prédio de classe média de São Paulo, ela estava mais isolada que qualquer ribeirinho dos confins da Amazônia. Não queria que descobrissem que havia perdido o controle da sua vida. E quando quis pedir ajuda, já não teve forças. Imagino quanto desespero sentia para conseguir romper as amarras de toda uma existência, se arrastar até a porta e admitir que não era mais capaz de abrir. Foi levada ao hospital, onde agora briga para viver.
Ela morava dois andares abaixo do meu. Quando eu soube, fiquei rememorando os últimos meses. Enquanto eu trabalhava, cozinhava, bebia vinho, tomava chimarrão, gargalhava, assistia a filmes, me emocionava com livros, me indignava com acontecimentos, conversava, namorava, sonhava, fazia planos, escrevia esta coluna e às vezes chorava, dois andares abaixo do meu, num espaço igual ao meu, uma mulher de 82 anos morria de fome nas trevas, em abissal solidão.
Enquanto eu ria, ela morria. Enquanto eu comia, ela morria. Enquanto eu sonhava, ela morria. No escuro, ela morria no escuro enquanto eu abanava da janela, o velho sorria ao sol, uma vizinha tentava me vender um novo creme antirrugas e Pedrão rosnava cegamente no elevador sob o olhar terno de seu gigante.
Não consegui dormir por algumas noites porque me via arremessada ao outro lado da rua, tentando imaginar os enredos que se passavam atrás das cortinas daqueles outros 69 apartamentos. Que vidas são aquelas, que dores se escondem, quais são os dramas que sou impotente para estancar? Anos atrás, antes de eu morar no prédio, um homem se lançou pela janela e morreu estatelado na laje. Como tantos o tempo todo. Um soluço apavorante na rotina e depois o esquecimento. Como agora, nesse morrer sem sangue e sem alarde.
Numa fissura do tempo algo que não pode mais ser oculto se revela – revelando também o nosso medo. Portas são derrubadas, cortinas rasgadas por um corpo que se lança para o nada, para nós. E, talvez pior, por um corpo que se esconde até ser exposto pelo cheiro da decomposição ainda antes da morte, corroendo os muros de nossa privacidade protegida com tanto empenho. Como a dela.
Depois precisamos esquecer para seguir vivendo. Mas não consigo esquecer. O que aconteceu com ela está acordado dentro de mim como um bicho. Dentro de nós também há um condomínio onde portas se fecham, chaves se perdem e o suicida que nos habita se lança no vazio enquanto outros em nós se decompõem em vida pela morte dos dias que não acontecem. Mergulho então, além dos dois que nos separavam, vários andares em mim. E lembro-me de Mário Sá-Carneiro, escritor português: “Perdi-me dentro de mim porque eu era labirinto. E hoje, quando me sinto, é com saudades de mim”.
Acredito que todos no prédio ficaram chocados, cada um à sua maneira. Porque ninguém percebeu a tempestade logo ali. Porque tudo se passou enquanto no avesso de cada janela tentávamos viver. Mas também – e talvez principalmente por isso – porque a tragédia se desenrolou no mesmo cenário onde tecemos o enredo de nossos dias.
O apartamento dela é igual ao nosso. Esta semelhança de condições e de arquitetura, de portas e de janelas, nos provoca um incômodo difícil de dissipar. Poderia ser nós a morrer de fome no escuro. Mesmo com uma história diversa, lá no fundo cada um de nós sabe que a solidão nos espreita. Que não estamos tão protegidos como gostaríamos. Seria mais fácil afastar nosso horror se fosse um assassino, uma morte por ciúme, uma violência cometida por um psicopata. Isto está sempre mais longe. Mas não. A doutora morria logo ali por solidão. E isto está bem perto.
Ela não viveu uma vida à toa. Ou uma vida egoísta. Ela apenas viveu mais tempo do que a maioria de seus amigos, que deve ter sepultado um a um. Mais tempo que os pacientes que tantas vezes salvou, e então o consultório ficou vazio. Ela tinha bens que poderia ter vendido quando ficou restrita a uma renda que não lhe permitia manter o padrão. Mas não tinha mais saúde para fazer o que era preciso. Com o tempo, não conseguia mais nem caminhar até o banco para buscar o dinheiro da aposentadoria ou pagar a conta de luz ou qualquer outra. Lentamente os fios de sua vida foram lhe escapando das mãos. E, no fim, quando percebeu que precisava romper o pudor cimentado nela e pedir ajuda, já não era capaz de andar pela casa para abrir a porta da rua e escancarar sua miséria. A doutora não queria morrer, só não tinha forças para viver neste mundo.
Por um tempo fiquei acordada pelas madrugadas, dormindo nas auroras, aterrorizada com as vidas desconhecidas abaixo e acima de mim, com os socorros que eu não sabia que precisava prestar, com o monstro de olhos abertos em mim. Devagar, comecei a pensar nas minhas escolhas. E agora tento aprender a amar melhor, para além das paredes de meus metros quadrados de mundo, mais iguais às dela do que eu e todos gostaríamos.
22/06/2010
Proposta de Felicidade
17/06/2010 -
Defensor dos direitos sociais, o deputado Chico Alencar (PSol-RJ) abraçou a ideia de inserir na Constituição a garantia à felicidade. A proposta, que passou a ser chamada de PEC da Felicidade, estabelece que os direitos sociais básicos são fatores fundamentais para a conquista pelo cidadão da satisfação e da felicidade. A iniciativa, encampada pelo senador Cristovam Buarque (PDT-DF), deve ser protocolada no Senado já na próxima quarta-feira.
Procurado pelo Congresso em Foco para opinar sobre o assunto, o deputado Chico Alencar avalia com otimismo o início da tramitação no Senado. “Essa emenda vai passar, eu não tenho dúvidas. Vamos ter a tramitação normal e uma aprovação unânime”, destaca. “A felicidade é um direito essencial do ser humano e tem a mesma importância de direitos básicos como educação, saúde e cultura”, completa.
Pela proposta, a emenda deverá ser inserida no artigo 6° da constituição, que trata dos direitos sociais. Pela legislação atual, a constituição trata hoje como prioridade os direitos à educação, à saúde, ao trabalho, à moradia, ao lazer, à segurança, à previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados. Com a modificação, o texto acrescentaria que tais direitos são fundamentais para a conquista da felicidade.
O texto final da PEC está nas mãos do senador Cristovam Buarque, que deverá fazer as modificações da proposta até o início da próxima semana. Após protocolada na secretaria-geral da Casa, ela precisará de pelo menos 27 assinaturas para que possa ser encaminhada à Comissão de Constituição e Justiça do Senado, que ficará encarregada em verificar a admissibilidade jurídica.
Na entrevista que concedeu nesta quarta-feira (16) ao Congresso em Foco, o deputado Chico Alencar foi categórico nas ponderações. Para ele, o Estado tem obrigação de se posicionar sobre o assunto na Constituição federal e garantir os mecanismos pela busca à felicidade. Alencar também avalia que a PEC permitirá ao parlamento brasileiro discutir pela primeira vez um assunto que há tempos já deveria ter sido tratado pelo Congresso Nacional.
Confira a entrevista:
Congresso em Foco - O senhor acha que a felicidade é algo possível de ser garantido pelo Estado e incluído na Constituição?
Chico Alencar – A Constituição do Brasil, além da afirmação de direitos objetivos, tem um valor simbólico. Incorporar esse direito à felicidade que vem através de outros direitos fundamentais e concretos, como a educação, a saúde, a moradia, o bem estar material, é muito bom. Eu acho que agregar esse elemento de subjetividade, mas indicando não aquela felicidade que cada um descobre por razões filosóficas, religiosas ou existenciais, mas aquela que deriva de condições dignas de vida. Isso tem a ver com a Lei e isso precisa sim estar na Constituição.
E o senhor acredita que a proposta contará com o apoio que realmente precisa entre as bancadas no congresso para seguir adiante?
Essa é uma emenda constitucional que vai passar. Ninguém vai ser contra. Eu a comparo com aquela que inseriu o direito à alimentação como direito fundamental do povo brasileiro. Ela teve uma tramitação demorada, como é natural em toda emenda constitucional, mas passou sem contestações. Nesse caso também, de incorporar o direito à felicidade nesse capítulo mais geral dos direitos fundamentais concretos. Nós vamos ter a tramitação normal da PEC, mas a aprovação unânime. Eu não imagino quem possa ser contra isso.
E por quais motivos o senhor passou a defender o tema? Qual a grande importância da felicidade para o ser humano na sociedade contemporânea?
Todo ser humano tem fome de pão e de beleza. O que compete ao Estado, ao poder público, à política, é garantir o direito ao pão. Saciar as pessoas todas, ainda mais em uma sociedade injusta e desigual como a nossa. A beleza fica nesse elemento da subjetividade. É claro que o Estado e o poder público têm que garantir a todos o acesso à cultura, que está junta, inclusive, com o acesso à educação. Mas, no que diz respeito à isso, o pão, inclusive o pão da cultura, é dever do Estado e deve estar na Constituição. O elemento da felicidade individual e psicológica aí é assunto privado de cada um.
Quem é conta a emenda argumenta que o Estado já é incapaz de garantir direitos como a educação e a saúde. Como vai assegurar algo tão subjetivo como a felicidade?
Eu acredito que aqueles que não têm entusiasmo pela proposta vão dizer que ela é inócua, que ela é simbólica, que ela não tem conseqüência prática, mas não para fazer um movimento de resistência ou oposição a essa emenda constitucional. Podem apenas não valorizá-la. E qualquer argumento que for apresentado nesse sentido vai merecer o contra-argumento de que a inserção do direito à felicidade está na declaração de independência dos Estados Unidos, de 1776, e é uma felicidade que a gente está vinculando à fruição dos direitos sociais que já estão assegurados pelo menos no texto da Constituição. Falta muito para assegurá-los na prática para todos os brasileiros. Com essa perspectiva da busca da felicidade através da garantia do direito elementar da educação, casa, da moradia e do trabalho, da vida digna, a gente consegue superar qualquer resistência.
Comparado a outras propostas, a PEC da felicidade é só mais uma proposta que chega ao Congresso para aguardar uma longa tramitação ou o senhor acredita que ela irá realmente ter possibilidades de ganhar a adesão dos parlamentares, inclusive para ter uma tramitação mais acelerada?
Já tivemos uma audiência pública no Senado, que foi muito rica e interessante, e provocou uma discussão que não é muito usual no parlamento. Inclusive sobre o que é a felicidade, o que é o bem estar. O filósofo Freud, em 1930, escreveu um texto muito importante falando do mal estar na cultura, dizendo que os valores da vida passaram a ser o prestígio, o sucesso, o poder e o dinheiro. Isso na verdade amplia a angústia humana. Então, a gente vai poder fazer uma discussão que a sociedade do consumo contínuo mascara. Ver o sentido mais profundo dos valores materiais que levam à felicidade do ser humano. Hoje você tem muitos bens materiais, mas nunca como antes se vendeu tanto psicotrópico, barbitúrico e calmante. Algo está errado. Há um mal-estar também agora, tantos anos depois, tantas décadas depois que Freud denunciou essa situação ainda na primeira metade do século passado. Então esse debate vai ser muito bom. Agora, eu insisto... eu não vejo que haja muita resistência à PEC a não ser a resistência da inércia, de achar que colocar a busca da felicidade na Constituição não seja algo importante.
Então o senhor acredita que o Legislativo estava em dívida? Os deputados e senadores já deveriam ter se posicionado para garantir a felicidade na forma de Lei à sociedade?
Sem dúvida alguma. Eu sou autor de um projeto que recupera o lema positivista original e recoloca na bandeira brasileira o amor, pois o lema é o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim. Ficou só a ordem e o progresso. E na prática da história republicana funciona da seguinte forma: ordem para os de baixo, progresso só para uns poucos de cima. Ou seja, é preciso colocar amor na bandeira. A mesma coisa eu posso dizer sobre a busca pela felicidade, que tem mais concretude até do que o simbólico do amor na bandeira. Então, eu acho que a gente vai conseguir e deve passar essa ideia adiante
18/06/2010
Comer e Rezar em Istambul
17/06/2010
Na calçada com Pessoa e com Montaigne
| Eu, em frente a casa do Proust |
Em Paris ou Lisboa há gente interessante a cada esquina, a cada rua. No vaivém dos boulevares há sempre detalhes que ninguém mais vê e os turistas desconhem... Da casa onde morou Marcel Proust à escultura de Montaigne. Minúcias que surpreendem.
A escultura de bronze do Montaigne fica bem na frente da Sorbonne. Ele, o Montaigne, está sentado, de mãos cruzadas e com cara de feliz. E tão próximo da calçada que é um convite ao carinho... nos pés... O filósofo disse certa vez que havia entregue o seu coração a Paris desde a mais remota infância ( a frase acompanha a escultura ) mas as pessoas gostam mesmo é de seus pés..
| um detalhe do sapatinho |
Pois é, Montaigne, em bronze, está com o sapatinho “encerado” pelas mãos de turistas e estudantes que não resistem e tocam o bico do sapato ao passar. Montagne tem os pés calçados à moda antiga, em modelo feminino e de salto alto. O close chama atenção. Afinal, o que seriam das esculturas se não recebessem o carinho despretencioso de alguém que passa?
| um carinho, de leve |
Em Lisboa, o Pessoa também na calçada. Só que com ele a gente senta e conversa.... Ele está sempre disponível em frente ao Café Brasileira: e eu ficaria, se pudesse, um dia com ele,de mãos enlaçadas! pena que a fila dos turistas seja tão grande para uma simples foto como esta...
| eu e ele... o Pessoa |
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassosegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, E sempre iria ter ao mar."
19/04/2010
30/03/2010
No Caldeirão Barroco
Em livro de excessos, José Eduardo Agualusa traça estranho painel de personagens que vagam numa Angola onde tudo parece prestes a ruir (texto publicado no Correio Braziliense em 27/03)
Elza Pires de Campos
Especial para o Correio
Sob a luz de um relâmpago um corpo cai na cidade de Luanda durante uma tempestade tropical, diante de um jornalista atônito, que presencia a cena num clarão de alguns segundos. Com esta imagem surreal, situada em uma Angola no ano de 2020, o escritor angolano José Eduardo Agualusa tece o seu mais novo romance, Barroco tropical.
Tanto a narrativa recheada de exageros quanto o excesso de personagens que ele apresenta, um a um, poderiam desanimar o leitor incauto e também assustado. Mas, os excessos se encaixam perfeitamente ao barroco proposto. É um livro de excessos. Que retrata uma Angola onde tudo parece cair, ou ruir, como aquele corpo de mulher — nua, negra e de braços abertos — a rasgar o céu.
O jornalista é Bartolomeu Falcato, escritor e cineasta, que busca, em toda a trama, desvendar o mistério daquela morte. Na caçada, desfila para o leitor um estranho painel de personagens. Todos, sem dúvida, desprotegidos e perseguidos, uma das singularidades de Agualusa. Anões, albinos, anjos ou loucos. Eles se movem numa epifania em meio a forças ocultas, rituais, feitiçarias. Um governo autoritário e pessoas perseguidas e acusadas da prática da chamada medicina tradicional, que Agualusa retira do mundo real, em recortes de jornais. E transporta para cenas descritas em ritmo cinematográfico, num estilo muito próximo da prosa poética , o que longe de desanimar quem lê, confere ao romance um poder de envolvimento difícil de resistir do começo ao fim.
Nesse caldeirão cultural se apresenta a África de língua portuguesa. No fim do romance há um glossário de termos angolanos que ajuda na compreensão do texto. Considerado, ao lado de Mia Couto, um dos renovadores da literatura em língua portuguesa na África, Agualusa também incorpora essa diversidade.
De origem indiana, ele nasceu na Angola colonial, em 1960, e divide sua vida entre Lisboa, Luanda e o Brasil. Tem sempre um pé em todos os espaços da língua portuguesa. É a ponta africana deste triângulo que ele coloca em evidência. Em cada capítulo parênteses para resumir ou provocar reflexões sobre Angola. Passado, presente e futuro se misturam.
Teia de medo
Tipos, personagens principais e secundários, aparecem num leque tão exagerado quanto diferenciado. Para evitar que o leitor se perca totalmente, são pacientemente costurados na apresentação inicial, em uma teia de medo: os estilistas gêmeos e anões Esaú e Jacó, idênticos, que moravam num desativado elevador que só desce, não sobe mais (ascensor ou descensor?); Tata Ambroise e o seu Labirinto de Deu, francês que reuniu centenas de loucos, todos antigos combatentes da guerra num local sem teto e onde os doentes mentais ficavam nus e acorrentados. Ali se pratica a chamada medicina tradicional, ou seja, um tratamento que mistura penas mágicas, feitiçarias e rituais macabros. O sanatório realmente existiu no pós-guerra, em Luanda. Tem ainda Rato Mickey, ex-soldado que trabalhava na remoção de minas até que um dia teve o rosto completamente desfigurado por uma delas. Passou a usar a máscara que lhe confere o apelido.
Nas noites de Luanda, no submundo de rituais remotos, sob um manto de medo, resquícios das origens culturais africanas, os personagens se dirigem ao bar “Orgulho Grego” onde uma inusitada mãe mocinha os acolhe, orienta, aconselha em consultas, joga os búzios. Mocinha é brasileira e mãe de santo. Chegou a Luanda já aos oitenta anos, vinda da Bahia e em busca de um marido africano. Casou-se com um branco, português. É no embalo do encantamento e da magia que o jornalista Bartolomeu Falcato se lança em busca de um fio qualquer que esclareça o enigma inicial. O mesmo jornalista que Agualusa transporta de sua obra anterior, As mulheres de meu pai. Falcato aparece agora como um elo entre os dois romances, doze anos mais velho, e num outro contexto. Como provoca Agualusa,“Quem não quer saber do que acontece a um personagem depois do fim?”
Elza Pires de Campos
Especial para o Correio
Sob a luz de um relâmpago um corpo cai na cidade de Luanda durante uma tempestade tropical, diante de um jornalista atônito, que presencia a cena num clarão de alguns segundos. Com esta imagem surreal, situada em uma Angola no ano de 2020, o escritor angolano José Eduardo Agualusa tece o seu mais novo romance, Barroco tropical.
Tanto a narrativa recheada de exageros quanto o excesso de personagens que ele apresenta, um a um, poderiam desanimar o leitor incauto e também assustado. Mas, os excessos se encaixam perfeitamente ao barroco proposto. É um livro de excessos. Que retrata uma Angola onde tudo parece cair, ou ruir, como aquele corpo de mulher — nua, negra e de braços abertos — a rasgar o céu.
O jornalista é Bartolomeu Falcato, escritor e cineasta, que busca, em toda a trama, desvendar o mistério daquela morte. Na caçada, desfila para o leitor um estranho painel de personagens. Todos, sem dúvida, desprotegidos e perseguidos, uma das singularidades de Agualusa. Anões, albinos, anjos ou loucos. Eles se movem numa epifania em meio a forças ocultas, rituais, feitiçarias. Um governo autoritário e pessoas perseguidas e acusadas da prática da chamada medicina tradicional, que Agualusa retira do mundo real, em recortes de jornais. E transporta para cenas descritas em ritmo cinematográfico, num estilo muito próximo da prosa poética , o que longe de desanimar quem lê, confere ao romance um poder de envolvimento difícil de resistir do começo ao fim.
Nesse caldeirão cultural se apresenta a África de língua portuguesa. No fim do romance há um glossário de termos angolanos que ajuda na compreensão do texto. Considerado, ao lado de Mia Couto, um dos renovadores da literatura em língua portuguesa na África, Agualusa também incorpora essa diversidade.
De origem indiana, ele nasceu na Angola colonial, em 1960, e divide sua vida entre Lisboa, Luanda e o Brasil. Tem sempre um pé em todos os espaços da língua portuguesa. É a ponta africana deste triângulo que ele coloca em evidência. Em cada capítulo parênteses para resumir ou provocar reflexões sobre Angola. Passado, presente e futuro se misturam.
Teia de medo
Tipos, personagens principais e secundários, aparecem num leque tão exagerado quanto diferenciado. Para evitar que o leitor se perca totalmente, são pacientemente costurados na apresentação inicial, em uma teia de medo: os estilistas gêmeos e anões Esaú e Jacó, idênticos, que moravam num desativado elevador que só desce, não sobe mais (ascensor ou descensor?); Tata Ambroise e o seu Labirinto de Deu, francês que reuniu centenas de loucos, todos antigos combatentes da guerra num local sem teto e onde os doentes mentais ficavam nus e acorrentados. Ali se pratica a chamada medicina tradicional, ou seja, um tratamento que mistura penas mágicas, feitiçarias e rituais macabros. O sanatório realmente existiu no pós-guerra, em Luanda. Tem ainda Rato Mickey, ex-soldado que trabalhava na remoção de minas até que um dia teve o rosto completamente desfigurado por uma delas. Passou a usar a máscara que lhe confere o apelido.
Nas noites de Luanda, no submundo de rituais remotos, sob um manto de medo, resquícios das origens culturais africanas, os personagens se dirigem ao bar “Orgulho Grego” onde uma inusitada mãe mocinha os acolhe, orienta, aconselha em consultas, joga os búzios. Mocinha é brasileira e mãe de santo. Chegou a Luanda já aos oitenta anos, vinda da Bahia e em busca de um marido africano. Casou-se com um branco, português. É no embalo do encantamento e da magia que o jornalista Bartolomeu Falcato se lança em busca de um fio qualquer que esclareça o enigma inicial. O mesmo jornalista que Agualusa transporta de sua obra anterior, As mulheres de meu pai. Falcato aparece agora como um elo entre os dois romances, doze anos mais velho, e num outro contexto. Como provoca Agualusa,“Quem não quer saber do que acontece a um personagem depois do fim?”
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