17/06/2010

Na calçada com Pessoa e com Montaigne

Eu, em frente a casa do Proust
Em Paris ou Lisboa há gente interessante a cada esquina, a cada rua. No vaivém dos boulevares há sempre detalhes que ninguém mais vê e os turistas desconhem... Da casa onde morou Marcel Proust à escultura de Montaigne. Minúcias que surpreendem.
A escultura de bronze do Montaigne fica bem na frente da Sorbonne. Ele, o Montaigne, está sentado, de mãos cruzadas e com cara de feliz.  E tão próximo da calçada que é um convite ao carinho... nos pés... O filósofo disse certa vez que  havia entregue o seu coração a Paris desde a  mais remota infância ( a frase   acompanha a escultura ) mas as pessoas gostam mesmo é de seus pés..
um detalhe do sapatinho 
 Pois é,  Montaigne, em bronze, está com o sapatinho “encerado” pelas mãos de turistas e estudantes que não resistem e tocam o bico do sapato ao passar.   Montagne tem os pés calçados à moda antiga, em modelo feminino e de salto alto.  O close chama atenção. Afinal, o que seriam das esculturas se não recebessem o carinho despretencioso de alguém que passa?
um carinho, de leve
Em Lisboa, o Pessoa também na calçada. Só que com ele a gente senta e conversa.... Ele está sempre disponível em frente ao Café Brasileira: e eu ficaria, se pudesse, um dia com ele,de mãos enlaçadas! pena que a fila dos turistas seja tão grande para uma simples foto como esta...
eu e ele... o Pessoa

"Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassosegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, E sempre iria ter ao mar."


30/03/2010

No Caldeirão Barroco

Em livro de excessos, José Eduardo Agualusa traça estranho painel de personagens que vagam numa Angola onde tudo parece prestes a ruir (texto publicado no Correio Braziliense em 27/03)

Elza Pires de Campos

Especial para o Correio



Sob a luz de um relâmpago um corpo cai na cidade de Luanda durante uma tempestade tropical, diante de um jornalista atônito, que presencia a cena num clarão de alguns segundos. Com esta imagem surreal, situada em uma Angola no ano de 2020, o escritor angolano José Eduardo Agualusa tece o seu mais novo romance, Barroco tropical.



Tanto a narrativa recheada de exageros quanto o excesso de personagens que ele apresenta, um a um, poderiam desanimar o leitor incauto e também assustado. Mas, os excessos se encaixam perfeitamente ao barroco proposto. É um livro de excessos. Que retrata uma Angola onde tudo parece cair, ou ruir, como aquele corpo de mulher — nua, negra e de braços abertos — a rasgar o céu.



O jornalista é Bartolomeu Falcato, escritor e cineasta, que busca, em toda a trama, desvendar o mistério daquela morte. Na caçada, desfila para o leitor um estranho painel de personagens. Todos, sem dúvida, desprotegidos e perseguidos, uma das singularidades de Agualusa. Anões, albinos, anjos ou loucos. Eles se movem numa epifania em meio a forças ocultas, rituais, feitiçarias. Um governo autoritário e pessoas perseguidas e acusadas da prática da chamada medicina tradicional, que Agualusa retira do mundo real, em recortes de jornais. E transporta para cenas descritas em ritmo cinematográfico, num estilo muito próximo da prosa poética , o que longe de desanimar quem lê, confere ao romance um poder de envolvimento difícil de resistir do começo ao fim.



Nesse caldeirão cultural se apresenta a África de língua portuguesa. No fim do romance há um glossário de termos angolanos que ajuda na compreensão do texto. Considerado, ao lado de Mia Couto, um dos renovadores da literatura em língua portuguesa na África, Agualusa também incorpora essa diversidade.



De origem indiana, ele nasceu na Angola colonial, em 1960, e divide sua vida entre Lisboa, Luanda e o Brasil. Tem sempre um pé em todos os espaços da língua portuguesa. É a ponta africana deste triângulo que ele coloca em evidência. Em cada capítulo parênteses para resumir ou provocar reflexões sobre Angola. Passado, presente e futuro se misturam.



Teia de medo

Tipos, personagens principais e secundários, aparecem num leque tão exagerado quanto diferenciado. Para evitar que o leitor se perca totalmente, são pacientemente costurados na apresentação inicial, em uma teia de medo: os estilistas gêmeos e anões Esaú e Jacó, idênticos, que moravam num desativado elevador que só desce, não sobe mais (ascensor ou descensor?); Tata Ambroise e o seu Labirinto de Deu, francês que reuniu centenas de loucos, todos antigos combatentes da guerra num local sem teto e onde os doentes mentais ficavam nus e acorrentados. Ali se pratica a chamada medicina tradicional, ou seja, um tratamento que mistura penas mágicas, feitiçarias e rituais macabros. O sanatório realmente existiu no pós-guerra, em Luanda. Tem ainda Rato Mickey, ex-soldado que trabalhava na remoção de minas até que um dia teve o rosto completamente desfigurado por uma delas. Passou a usar a máscara que lhe confere o apelido.



Nas noites de Luanda, no submundo de rituais remotos, sob um manto de medo, resquícios das origens culturais africanas, os personagens se dirigem ao bar “Orgulho Grego” onde uma inusitada mãe mocinha os acolhe, orienta, aconselha em consultas, joga os búzios. Mocinha é brasileira e mãe de santo. Chegou a Luanda já aos oitenta anos, vinda da Bahia e em busca de um marido africano. Casou-se com um branco, português. É no embalo do encantamento e da magia que o jornalista Bartolomeu Falcato se lança em busca de um fio qualquer que esclareça o enigma inicial. O mesmo jornalista que Agualusa transporta de sua obra anterior, As mulheres de meu pai. Falcato aparece agora como um elo entre os dois romances, doze anos mais velho, e num outro contexto. Como provoca Agualusa,“Quem não quer saber do que acontece a um personagem depois do fim?”

22/02/2010

LENDO LOLITA EM TEERÃ

João Domingos

Mesmo sendo um leigo em política, religião, questões bélicas e corrida nuclear, é possível entender um pouco do que hoje é o Irã pela leitura do romance de base histórica Lendo Lolita em Teerã. Num texto sensível, a autora, a irianiana Azar Nafisi, de 57 anos, consegue passar ao leitor o que foi o Irã revolucionário após a queda do xá Reza Pahlevi, em 1979, a briga que se deu pelo poder entre os diversos grupos revolucionários, a completa vitória dos aiatolás, o que tirou do regime a esperança de liberdade e o transformou num instrumento de terror e a guerra com o Iraque.
Descendente de uma família que por 800 anos se destacou entre a intelectualidade persa, Azar Nafisi estudou na Inglaterra, Suíça e Estados Unidos. Nos EUA ela participou dos protestos contra a ajuda dos norte-americanos ao regime do xá. Com a queda de Reza Pahlevi, voltou a seu país para dar aulas de literatura inglesa na agitada e revolucionária Universidade de Teerã, pensando sempre no avanço da democracia, da garantia dos direitos individuais e, principalmente, na liberdade da mulher. Ocorreu tudo ao contrário. O regime se fechou, as mulheres passaram a ser reprimidas, obrigadas a usar o véu em público e a serem submetidas a testes de virgindade. Azar foi jogada para fora da universidade.
Para não enlouquecer, ela passou a dar aulas clandestinas em sua casa a sete alunas nas quais confiava. Leram e interpretaram Scott Fitzgerald, Henry James e Jane Austen, mas sobretudo Vladimir Nabokov, autor de Lolita. Num dos livros de Nabokov, o personagem principal, preso, é obrigado a dançar com o próprio carcereiro, e tem ordens para não sonhar, porque sonhar significa buscar a liberdade.
Nas suas leituras, as oito mulheres concluem que, como no romance Lolita, em que o quarentão Humbert estupra uma menina de 12 anos, a ditadura expõe os cidadãos à dor física e à tortura. Na interpretação delas, a tragédia maior não é o estupro, mas o confisco individual de uma vida por outra. Lolita não tem para onde ir, pois depende de Humbert para tudo. Ao mesmo tempo em que ele faz de tudo para possuí-la, tenta transformá-la em sua fantasia e seu amor, mas a destrói. Nas palavras da própria Azar: “Assim é a vida numa sociedade totalitária. Um mundo de solidão, em que o Estado é o salvador e o carrasco”.

João Domingos é repórter do jornal O Estado de s. Paulo

Etiquetas nos produtos para um planeta mais limpo

Além do preço, da validade do produto, da composição ( com ou sem glútem) o consumidor agora também terá direito a saber quanto de C02 (dióxido de carbono) foi emitido na atmosfera durante toda a produção e vida útil daquele produto.

A novidade já virou lei na França. A partir de 2011 os consumidores franceses serão informados sobre os quilos de dióxido de carbono emitido ao longo de ciclo de vida de cada produto comprado nas prateleiras dos supermercados. A rede Casino, de supermercados já tem produtos rotulados a partir da nova Lei. Chamadas de medidas concretas pelo planeta, a série de recomendações da nova Lei Ambiental francesa prevê a proibição a partir deste ano de lâmpadas que consomem mais energia, investimentos em linhas ferroviárias de grande velocidade, introdução do princípio do poluidor-pagador durante a coleta de lixo para incentivar a coleta seletiva junto aos consumidores e aplicação da norma de baixo consumo de água e energia em todos os novos empreendimentos imobiliários.

15/01/2010

Uma Boa Ideia



Legumes e frutas orgânicos ao sair do metrô


Começou em Londres no café Konstam que vende 80% dos produtos locais- frutas e legumes – na região onde passa o metrô. Agora também em Paris a empresa SNCF – que administra o metrô da cidade – abriu espaço para pequenos estandes de cestas orgânicas facilitando o encontro de produtores e consumidores. No período que vai das 16hs às 19hs há pontos de vendas em várias estações com produtos colhidos no dia. Frutas da estação, legumes, cogumelos. As cestinhas estão acompanhadas de receitas. A iniciativa teve tanto sucesso que no final do ano 15.000 cestas foram vendidas em 12 estações de metrô. A expectativa é que a adesão dos consumidores aumente ainda mais este ano. Fonte: http://www.mescoursespourlaplanete.com/Actualites/

10/01/2010

O Sentido da Vida nas Pedras de Itaparica




Em O Albatroz Azul, seu romance mais recente, João Ubaldo recorre a uma narrativa despretenciosa para evocar suas memórias na Ilha de Itaparica
Elza Pires de Campos
Especial para o Correio-publicado em 31/12/2009
Façamos de conta que desconhecemos quem é João Ubaldo Ribeiro, vencedor do prêmio Camões de Literatura no ano passado, o mais alto galardão da literatura portuguesa, autor de romances históricos e sucessos de venda e de público como Viva o povo brasileiro, Sargento Getúlio e A casa dos budas ditosos. Pode-se imaginar também que, de João Ubaldo, saibamos apenas que nasceu em Itaparica, aquela ilha que os índios tupinambás assim chamaram por estar cercada de pedras (Ita-parica), situada muito próxima da Baía de Todos os Santos.
Só assim é possível perceber a forma que veste O Albatroz Azul, o livro de João Ubaldo lançado agora pela Nova Fronteira. Numa narrativa aparentemente simples e despretensiosa, o texto flui como água, o tempo transcorre na “lambida sonolenta da água nos costados dos barcos apoitados” e no ar com um cheiro de “uma mistura almiscarada de maresia, peixe fresco, comidas de tabuleiro e mingau, café torrado, melaço de cana e bosta de vaca”. É para sua ilha natal que João Ubaldo retorna e situa Tertuliano Jaburu, protagonista desta curta história.
Assim como não é por acaso que esta trama se passe em Itaparica, também não é nada aleatório o nome Tertuliano para o personagem principal. São Tertuliano foi um dos mais importantes escritores e filósofos cristãos da língua latina. É o autor da famosa frase “creio porque é absurdo”.
É justamente no estreito limite da crença com o absurdo que João Ubaldo constrói mais esta deliciosa história. Que vem entremeada por velhos ditados, saberes locais e filosóficos como “o explicar e o compreender, tão diferentes entre si que caminham separados”.
Mistérios
Na ilha de Itaparica, Tertuliano Jaburu é aquele velho sábio que está justamente de cara para o passado. Sua vida foi toda na ilha, seus amigos estão lá, sua família, seus muitos filhos com muitas mulheres, seus pais, avós e bisavós. Da quina da rampa do Largo da Quitanda e no caminho até a Bica,Tertuliano revê sua vida, carregado de mistérios, crenças, negros e brancos, Portugal e Brasil. Não por acaso, ainda, a história toda se passa no ano em que nasceu João Ubaldo, 1941. O narrador, por intermédio de Tertuliano, entre benzeduras e banhos de folha, costura e tece a trama principal deste livro lançado exatamente quando o autor completa cinco décadas de carreira literária.
No mercado da Ilha, no meio das fileiras de balaios cheios de peixe ou ao entardecer, quando os raios de sol refletem os “tons de açafrão” nas folhas das amendoeiras, Tertuliano nos apresenta seus amigos, o alfaiate Nestor Gato Preto, companheiro de décadas e possuidor de grande familiaridade com o oculto, o sagrado e o espiritual, adivinho, chegado desde tempos imemoriais às sociedades secretas. Além dele, tipos como Dona Roxa Flor, Iá Cencinha, Cipriano Mau Sorriso, Julia Mocinha, a negra mãe de santo que, católica fervorosa, jura não participar de cultos afro; Altina Pequena, a parteira que pilotara mais de três mil nascimentos na ilha; Natálio Querosene ou o barbeiro Nascimento, cujo falar repolhudo exige do autor o esmero linguístico dos seus grandes clássicos.
Afinal, em que lugar do mundo poderia existir uma barbearia com o nome de Tricotomia Parnaso? O verbete tricotomia indica um ramo que se divide em três partes e Parnaso nada mais é do que o monte grego onde sempre viveram os poetas. É na barbearia que Tertuliano se recolhe para providenciais desabafos com o barbeiro Nascimento e seu ajudante.
A trama se passa em dois dias. Somente dois dias na vida de Tertuliano, que, naquela noite de lua cheia se prepara para, talvez, o maior acontecimento da sua vida. Iria ter um neto homem. Ele, que já sabia e adivinhara o sexo do bebê desde que observou a barriga da sua filha Belinha; ela, casada com Saturnino que, como alguns homens, só conseguia fazer nascer mulheres e já fizera nascer em Belinha sete meninas encarreiradas. Mas agora sua filha daria à luz um homem. E não se tratava de um menino qualquer. Era um neto especial. A mesma certeza que embalava a vinda do neto leva Tertuliano a se preparar para a morte, num rito de passagem tão natural e inusitado quanto a existência de um Albatroz Azul.
Tertuliano passa seu dia na tarefa de escolher o nome do neto. Consulta o padre sobre o santo do dia. Nascido no dia de São Raymundo, Raymundo Penaforte, com ipsilone mesmo, o padroeiro da Ilha de Itaparica. O amigo Gato Preto sugere o padrinho. E para que o inusitado e o absurdo se completem, na hora do nascimento a velha parteira Altina Pequena observa, assustada, da janela aberta sob a luz da lua cheia, que o parto não seria nada fácil. A criança estava virada.
O neto de Tertuliano, menino de sorte, teria um padrinho rico e seria um advogado. Ele nasce, ou, como diz o barbeiro Nascimento, “vem à luz da vida com o uropígio voltado para selene” — o garoto para quem os profetas (ou vates) locais previram um futuro glorioso, nascera, literalmente, de cu para a lua.
É neste passeio sobre o sentido da vida, o inusitado do passado e das previsões do futuro, que o mais recente livro de João Ubaldo funciona como um olhar bem-humorado para as memórias do seu próprio passado, na bela ilha onde ele nasceu.
O Albatroz Azul De João Ubaldo Ribeiro Editora Nova Fronteira 224 páginas Preço: R$ 39,90