31/03/2014



Speak Memory





No dia 31 de março de 1964 eu e meus quatro irmãos -- idades que variavam  entre  três e dez anos -- estávamos escondidos embaixo da cama dos nossos pais. Lembro-me bem do estrado em madeira preso por dobradiças e algumas teias de aranha salpicadas entre as vigas. As  flores desbotadas do lençol que nos cobria e o cheiro de mofo que vinha do velho colchão do casal. Um frio na barriga e arrepios pelo corpo. 
 Obedecíamos a uma ordem estrita de não sair dali.  Nosso choro se misturava ao som dos vôos razantes de aviões militares. Era a guerra. Morávamos a duas ruas do Palácio das Esmeraldas. Minha mãe havia nos escondido naquele local, minutos depois de saber do golpe quando os aviões começaram a surgiu no céu da cidade. Goiânia, naquela época, era uma pacata cidade de interior. Com pracinha e coreto. 
 Minha mãe nos trancara no seu quarto sem qualquer explicação. Dizia apenas que era para o nosso bem. Dava para perceber que havia algo terrível no ar. Lembro da frase que ela repetia ao telefone - Ah! o telefone era enorme, um modelo preto fixado na parede  bem ao lado do quarto.  Ela dizia com a voz entrecortada “Jango foi deposto”. Eu não entendia nada. Nem sabia o que significava a palavra “deposto”... Imaginava algo como um posto de gasolina. Ela, a minha mãe, estava mais do que apavorada. Estava em pânico.  Mesmo no forte calor que fazia na nossa região nesta época do ano, minha mãe estava de casaco, meias de lã  e ainda se protegia com um xale de crochê vermelho. Ela sentia muito frio. Era comum, durante a vida toda, ela começar a tremer de frio quando estava com medo ou sentia que seus filhos estavam ameaçados.
 No dia do golpe, depois fui entender, os militares ameaçaram invadir o Palácio das Esmeraldas para depor o governador Mauro Borges. Uma multidão tomou as ruas,  ocupou a Praça Cívica em frente ao Palácio e o governador, que era aliado do Brizola e também do Jango, e iniciara uma luta pela legalidade, deixou sua residência nos braços do povo. Enquanto dentro do quarto o clima era de pânico, lá fora, na praça, o que aconteceu foi um ato político e cívico contra o golpe. Um golpe que, afinal, durou vinte anos e significou, praticamente, toda a adolescência daquela turminha apinhada sob a cama.
 Mas minha mãe, que tinha dez filhos, só pensava nos riscos e tinha medo que, vendo a multidão, fugíssemos todos para a Praça Cívica, em clima de festa.  Aliás,  aquela praça funcionava, para nós como uma espécie de parquinho. Todas as tardes os mais velhos seguravam nas mãos dos pequenos e  brincávamos no coreto. 
Além de nos trancar no quarto ela tentava controlar os outros filhos maiores, naquele dia  todos na rua. Minha irmã mais velha, já casada, estava na praça com o marido --  um jovem juiz que viera de sua comarca próxima  de Goiânia para homenagear o governador e protestar contra o golpe. O irmão mais velho tinha dezoito anos e prestava serviço militar. Naquele dia ele não voltou para casa. Vi depois minha mãe ao lado do rádio, rezando e chorando. Meu irmão fora obrigado a ficar “de prontidão” no quartel.  Outra  palavra que aprendi  naquele dia foi esta : “prontidão”.  Minha mãe repetia o  tempo todo. “Imagina, o Junior está de prontidão há mais de uma semana, eles lá não dormem, ficam de guarda com fuzil na mão, o que ele deve estar comendo naquele quartel? e se  estourar a revolução?” E se lamentava, triste, batia o queixo de frio, lábios sem cor, olheiras profundas. “Fiquem todos em casa, agora”. Ninguém sai mais,  e,  se seu pai tiver juízo a gente arruma as malas e sai da cidade”, ela dizia. E já começava esvaziar as gavetas. Só que o meu pai, para desespero dela, também estava na praça,  protestando “totalmente sem juízo”.
Embaixo da cama eu imaginava o que ocorria na praça. Pelo relato dela, haveria “derramamento de sangue”. Nesta hora eu e meus irmãos rezávamos e eu chorava muito porque via um rio de sangue escorrendo pela Praça Cívica, muita gente se contorcendo ou já morta com o tal “derramamento” e a nossa velha e querida fonte iluminada da praça, sempre tão bucólica,  totalmente vermelha. Com o sangue derramado. 

27/11/2013


Para o Theo: Brasília, 9 de novembro de 2013
SAPO SALVIAN0

O sapo Salviano mora no quintal.
Mais correto dizer que ele mora entre a piscina e o quintal. Ele é uma criatura anfíbia, ou seja, que vive tanto na água como na terra, Salviano pode escolher. Se estiver fresquinho, ele fica debaixo da mangueira. Se estiver muito calor, ele fica na piscina. Se o tempo ficar muito frio ele não tem dúvida. Se enfia no oco do tronco da árvore caída no jardim. Ali ele se aquece e fica bem quentinho no meio das folhas. E pode até dormir um soninho
Nuvens de Aleluias
Mas hoje está chovendo muito. Chove sem parar naquele quintal. E o mais engraçado. Quando chove Os isópteros, que são insetos que têm duas asas iguais, do mesmo tamanho, começam a sair aos montes de dentro da terra. São Aleluias que vivem pouco mais do que um dia.
Pois não é que o Salviano come as Aleluais?
O Sapo Salviano após comer as Aleluias
As Aleluias vivem em cupinzeiros (ou uma caverna cavada dentro da terra) com a sociedade dividida nas seguintes castas: os reprodutores, que são os indivíduos com asas (esses que entram na nossa casa a noite) machos e fêmeas que são encarregados de propagar a espécie fora do cupinzeiro em que nasceram. O casal se encontra e inicia o processo de construção do próprio ninho, vivem juntos por toda vida nas profundezas da nova colônia. Os soldados (fêmeas) e operários (machos) são formados por formas sem asas e estéreis e tem a função de cuidar do cupinzeiro tal como formigas operárias fazem. Quando as aleluias criam asas elas saem em revoada
As revoadas são formadas, claro, pelos machos e fêmeas reprodutoresUma vez fora, saem voando direcionados pela luz, por isso aparecem sempre na lâmpada da nossa casas.
Na foto acima há uma palmeira do quintal. Ao lado dela, milhares de aleluias voando no dia de chuva. Uma nuvem preta de aleluais. Para alegria de Salviano todas elas caíram dentro da piscina. E ele comeu, comeu, comeu tantos bichinhos que ficou com a barriga cheia. Salviano ficou pançudo e gordo. E foi dormir, dentro da piscina.



12/12/2012

A primeira letra - Capitular


Carteira de estudante de Romeu Pires de Campos Barros -1936

O erre do meu pai era especial. Uma capitular inscrita para sempre nos meus olhos infantis....quando assinava a letra inicial de  seu nome, em cheques, documentos e outros papéis, ele o fazia  em um gesto largo, sempre com uma caneta-tinteiro,  e de ouro.
Primeiro desenhava, pacientemente, o primeiro esboço da letra, um traço horizontal e displicente. De cima pra baixo como um rabisco qualquer.Depois vinha com um semi-círculo em cima do traço e espichava, caprichoso, um longo rabicho que terminava como um arredondado para cima da primeira letra do seu nome. Erre, de Romeu.
A forma da maiúscula era bem antiga,  tempo da escrita desenhada  que se esconde na noite dos séculos...
Precisava de espaço na página. Em talões de cheque, seu erre sempre terminava no final da folha, no cantinho. Um caractere  desenhado. Que jamais poderia ser confundido com um outro erre qualquer.
Um erre de quem jamais errava.
Havia mesmo um ritual. Primeiro ele se concentrava. Ficava muito sério, quase solene... Verificava se havia tinta na caneta. Preparava ao lado aquela almofadinha verde ou marrom em formato arredondado que se chamava mata-borrão. (Isso nem existe hoje mais, só em antiquários...).
Alguns gestos do meu pai duram cem anos...
Muitas vezes eu buscava no correio, na caixa postal, as revistas italianas que ele recebia. Vinham embrulhadas em um papel marrom claro. Ele as abria, uma a uma, e, na segunda ou terceira página, escrevia seu nome. Que ocupava toda página. Na diagonal.
Depois, ainda com muita calma, tirava da gaveta de sua escravaninha uma espécie de punhal com cabo de prata. A espátula.Um corta-folhas porque as revisitas vinham  coladas. Era uma peça lindíssima, uma quase-faca destinada apenas a cortar papel. Mas, como  tudo ali, naquele espaço sagrado,  o escritório, não podíamos tocar. Só olhar... de longe... admirar... cobiçar..
 Com esta peça ele abria cada maço de folhas das revistas que vinham dobradas e inteiras. Era preciso abrir  com esta espátula cada uma das páginas. Ficavam pelo chão as migalhas daquele papel chique, espesso, meio amarelado, que tinha cheiro de novo.
A caneta de ouro era um outro fetiche....O modelo  bem parecido com uma destas esferográficas qualquer.  Um objeto  pesado. Nas poucas vezes em que estive com  ela nas mãos senti a responsabilidade. Eu pensava que um dia teria uma igual... e que era difícil escrever solenemente..o dedo anular se esforçando para arredondar cada letra.



16/11/2011

O infinito de Kuzama

foto: João Domingos

Ela tem 82  anos , trabalha intensamente e expõe pela primeira vez em Paris.  Yayoi Kusama nos leva ao infinito nesta instalação do Centro Cultural Georges Pompidou em Paris. Ela brinca com bolinhas e luzes coloridas. Azuis, verdes e vermelha. A sensação é de ausência e do limite pequeno entre o homem e o espaço. Lindo!!! mais detalhes www.centrepompidou.fr

21/09/2011

No caminho de Rilke


ORPHEU E EURIDICE
Um dia li este poema na madrugada. E consegui enxergar algo que antes não via:   esta distância tão pequena de dois mundos: dos vivos e dos mortos. A surpresa reveladora de Eurídice. Ela já estava em outro mundo....

ORPHEU.EURIDICE.HERMES

Eram as minas ásperas das almas.
Como veios de prata caminhavam
Silentes pela treva. Das raízes
Brotava o sangue que parece aos vivos,
Na treva, duro como pórfiro. Depois
Nada mais foi vermelho

Somente rochas,
Bosques imateriais. Pontes sobre o vazio
E o lago imenso, cinza e cego,
Que sobre o fundo jaz, distante, como
Um céu de chuva sobre uma paisagem
Por entre os prados, suave, em plena calma
Deitado, como longa veia branca,
Via-se o risco pálido da estrada

Desta única via vinham eles.

`A frente o homem com o manto azul,
esguio, olhar em alvo, mudo, inquieto.
Sem mastigar, seu passo devorava a estrada
Em grandes tragos; suas mãos pendiam
Rígidas, graves, das dobras das vestes
E não sabiam mais da leve lira
Que brotava da ilharga como um feixe
De rosas entre ramos de oliveira.
Seus sentidos estavam em discórdia:
O olhar corria adiante como um cão,
Voltava, presto, e logo andava longe,
Parando, alerta, na primeira curva,
Mas o ouvido estava como um faro.
`As vezes parecia-lhe sentir
a lenta caminhada dos dois outros
que o acompanhavam pela mesma senda,
mas só restava o eco dos seus passos
a subir e do vento no seu manto.
A si mesmo dizia que eles vinham
Gritava, ouvindo a voz esmorecer
Eles vinham, os dois, vinham atrás,
Em tardo caminhar. Se ele pudesse
 voltar-se uma só vez (contemplá-los
não fosse o fim de todo empreendimento
nunca antes intentado) então veria
as duas sombras a seguir silentes:

O deus das longas rotas e mensagens,
Capacete sobre os olhos claros,
O fino caduceu diante do corpo,
Um palpitar de asas junto aos pés
E, confiada à mão esquerda: ela
A mais amada, essa por quem a lira
Chorou mais que o chorar das carpideiras,
Por qum se ergueu um mundo de chorar,
Um mundo com florestas e com vales,
Estradas, povos, campos rios, feras:
Um mundo-pranto tendo como o outro
Um sol e um céu calado com seus astros,
Um céu-pranto de estrelas desconformes –
A mais amada.

Ia guiada pela mão do Deus,
O andar tolhido pelas longas vestes,
Incerto, tímido, sem pressa.
Ia dentro de si,como esperança
E não pensava no homem que ia `a frente,
Nem no caminho que subia aos vivos.
Ia dentro de si. E o dom da morte
Dava-lhe plenitude.
Como um fruto em doçura e escuridão,
Estava plena em sua grande morte,
Tão nova que não tinha entendimento

Entrara em uma nova adolescência
Inviolada. Seu sexo se fechava
Como flor em botão no entardecer
E suas mãos estavam tão distantes
De enlaçar outro ser que mesmo o toque
Levíssimo, do guia, o Deus ligeiro,
A magoava por nímia intimidade.
Não era mais a jovem resplendente
Que ecoava nos cantos do poeta,
Nem o aroma do leito do casal
Nem ilha e propriedade de um só homem.

Estava solta como os seus cabelos,
Liberta como a chuva quando cai,
Exposta como farta provisão

Agora era raiz.

E quanto enfim o deus
a deteve e com voz cheia de dor,
disse as palavras: “Ele se voltou “–
ela não compreendeu e disse: “Quem?”

Mas pouco além, sombrio, frente `a clara
Saída se postava alguém, o rosto
Já não reconhecível. Esse viu
Em meio ao risco brando do caminho
O deus das rotas, com olhar tristonho,
Volver-se, mudo, e acompanhar o vulto
Que retornava pela mesma via,
O andar tolhido pelas longas vestes,
Incerto, tímido, sem pressa.

Autor: Rainer Maria Rilke 
tradução de Augusto de Campos

16/08/2011

Átimo de interlúnio


Taete, na Holanda em maio/2011

No relance de um soluço
 A menina está de   luto
Quatro letras tem seu nome
Quatro estações seu desgosto

Na estação  do alicerce
Estava um  pano puído
Desbotado pelo tempo

Seguimos pela mente aberta
 fundos rasgos na memória
neurônios envelhecidos
pendurados num  varal
ao sabor de um vento úmido
ao longe, verdade-luto
impoluto

Na estação da justiça
Ha silêncio de vencidos
Só um grito entre dois sóis

Na derradeira parada
Holanda e Terras Baixas
Pontuada de  moinhos
Canais e mares distantes

Resta ausência,
 vida curta até fugaz
Um átimo de interlúnio 

26/02/2011

Mosaico de Simplicidade

Meu Tipo de Garota  de Buddhadeva Bose


Elza Pires de Campos
publicado no Caderno Pensar do Correio Braziliense em 26/02

Dois lançamentos da Companhia das Letras celebram países asiáticos vizinhos, a Índia e o Paquistão, e seu mosaico de culturas tão antigas quanto pouco conhecidas entre nós. O indiano  Buddhadeva Bose   e o paquistanês Daniyal Mueenuddin  desvendam, em contos, a atmosfera de mistérios, cheiros, cores, sabores e diferentes matizes  de um literatura que já nasceu mergulhada em um quebra-cabeças de línguas e dialetos diferentes.  Na  riqueza cultural dos contos destes dois livros há em comum apenas um adjetivo: a simplicidade.
O indiano Buddhadeva Bose (1908-1974) foi um dos mais importantes poetas do século XX, natural da região de Bengali, norte da índia.  Ele produziu poemas, romances e contos, além de ser professor e criador do Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Jadavpur, em Calcutá, e tradutor de autores ocidentais como Baudelaire e Rilke.
Em “Meu tipo de garota”, Bose transfere a narrativa para quatro senhores de meia idade. Um burocrata, um médico, um empreiteiro e um poeta e escritor estão sentados em silêncio na sala de espera da estação ferroviária de Tundla,  norte da Índia.
A noite é fria e a monotonia da espera é interrompida, de repente, com a entrada de um casal jovem e apaixonado. Agarrados um ao outro, o casal busca  um lugar seguro e tranquilo para ficarem a sós. Mas logo deixam  o local. A cena do jovem casal e a notícia do atraso do trem que os deixaria ali a noite inteira quebram de repente o silêncio e a distância entre os quatro passageiros. Eles decidem passar o tempo e esquecer o frio contando suas próprias histórias- de amor e saudade-enquanto aguardam .
A única regra estabelecida é a sinceridade no relato. O empreiteiro lembra Malati, filha inabalável de um professor. O burocrata fala de Pakhi e dos beijos numa noite de luar. O médico conta sobre como descobriu e encontrou a sua esposa, Bina,  e da paixão dela por seu amigo, Ramen. Finalmente é o poeta que conta a história mais singular e delicada dos quatro contos. Ele recorda a sua própria paixão e de outros dois garotos  por  Toru, uma belíssima jovem que um dia chega na aldeia em que moravam. A emoção na narrativa do poeta convence a todos que aquela sim, seria dos quatro relatos a verdadeira história de amor.                                                                                                                                                                          Os episódios ocorrem entre meados de 1920 e a Segunda Guerra Mundial (o livro foi publicado pela primeira vez em 1951) e retrata a sociedade bengali daqueles tempos.
Se o Ocidente conhece a literatura indiana por intermédio do premiado Salman Rushdie, que deixou o seu país  aos 18 anos e foi morar na Inglaterra, os editores redescobrem agora esta geração de poetas e escritores da qual Bose é um dos principais representantes. Ao contrário de Rushdie,  que com outros faz parte dos escritores indianos da “diáspora”, Bose e sua geração permaneceram na Índia, retratando o país de dentro e, mesmo em contato com os escritores ingleses, tentaram preservar as tradições buscando seus próprios rumos literários.
Bose sempre viveu em Calcutá e transformou sua casa em local de encontros de alunos, escritores, intelectuais e editores que passavam noites em animadas conversas literárias embaladas por infinitas xícaras de chás aromáticos.
Vizinho da Índia, um Paquistão quase feudal se revela “Em outros quartos, outras surpresas” na luta pela sobrevivência a qualquer custo  que pontua os oito contos do paquistanês Daniyal Mueenuddin. O desemprego, as diferenças sociais, a pobreza e a instabilidade para os jovens e  velhos costuram todas as histórias, interligadas por um personagem comum a elas: o rico proprietário de terras K. K. Harouni. Do eletricista Nawabdin, que vive nas terras do patrão, mas o engana sempre buscando pequenos serviços por fora , à jovem Husna que seduz o velho Harouni só para ter um local confortável para comer e dormir, ou Saleema, a doméstica  que dorme com o cozinheiro de Harouni na tentativa de não perder o trabalho, revela-se a tensão permanente dos personagens na  luta pela ascensão social.
Mueenuddin nasceu em 1963 e foi criado em Lahore, Paquistão, mas estudou nos Estados Unidos. Com este livro de contos ele foi finalista do Prêmio Pulitzer no ano passado e indicado para vários outros destaques na literatura de língua inglesa. Antes disso teve contos publicados na revista New Yorker.
Neste ambiente mergulhado na magia do Oriente, os contos de Mueenuddin e  Bose trazem mulheres vestidas em coloridos sáris, tatuadas em henna, cabelos negros e longos que elas penteiam e secam ao sol, amassando diariamente os chapattis, aquele pão achatado e feito numa chapa de cerâmica e ferro.  Homens que interrompem o trabalho e rezam várias vezes ao dia . A espiritualidade, as cores e os cheiros dos temperos e de jasmins sempre foram  um fascínio no Ocidente.  O Paquistão, com a maior população mulçumana do planeta, é ainda mais misterioso entre nós.
Apesar de hoje inimigos políticos, a literatura nesses dois países que um dia foram um só território  tem um singular fator de  unidade: o sânscrito. A literatura sânscrita percorre várias etapas ao longo do tempo, e só a epopéia Mahabharata, de data incerta, provavelmente do início da Era Cristã, é um composto de cem mil versos de trinta e duas sílabas.
Alicerce dos ensinamentos sagrados indianos e a língua dos brâmanes, o sânscrito  foi também a origem de inúmeras línguas  no norte da índia -- assim como o latim para as línguas romanas --  e durante séculos considerada a forma perfeita para a comunicação com os deuses. Se a diversidade linguística favorece o romance e o conto, é  sem dúvida interessante conhecer a literatura desta parte do Oriente.

Trechos:
“As  palavras finais do escritor flutuaram por algum tempo no ar abafado da sala, com ele sentado em silêncio diante daquela última pergunta não respondida. Não havia mais nele nenhum sinal de inquietação;.... e mesmo depois de calar, parecia que as palavras não tinham terminado; ele continuava escutando sua própria voz, sem cessar; por fim, como acontece quando se joga  pedra em uma poça d’água, as reverberações das palavras morreram também”  “Meu tipo de Garota”  Buddhadeva Bose
“Aos vinte e quatro anos, aquela vida dura ainda não havia deixado marcas nela e, quando sorria, suas covinhas a faziam parecer ainda mais nova, uma menina mesmo; ela  também conservava um pouco da gravidade de menina. Era verdade que o cozinheiro Hassan tinha conseguido tudo dela; como sempre, ela havia se entregado rápido demais”...  “Em outros quartos, outras supresas” Daniyal Mueenuddin


11/01/2011

O ritual dos "gajos"

Inês Pedrosa, escritora e jornlista

Elza Pires de Campos
Especial para o caderno Pensar
Publicado no Correio Braziliense em 08/01/2011

Em uma noite chuvosa de Lisboa cinco amigos se dedicam ao ritual  de beber e conversar.  Fazem isto há décadas. Uma vez por mês. Para curiosidade, ciúme e surpresa de suas esposas, amigas, amantes e parceiras.  Os gajos conversam sobre as gajas, para usar uma expressão bem comum ao português falado em Lisboa.
No último romance da escritora e jornalista portuguesa Inês Pedrosa ,  Os Íntimos,  publicado pela Editora Objetiva,  a fala masculina conduz o romance nas vozes dos cinco amigos. O médico oncologista Afonso e seus colegas de infância Augusto, Guilherme, Felipe e Pedro. No centro de cada narrativa partilhada entre eles, a vida sexual e afetiva de cada um.“`As vezes acho que nenhum de nós está a ouvir os outros, e invade-me uma sensação de felicidade. Ninguém é obrigado a ouvir ninguém.   Nem a falar”, ou  “Os homens não se ofendem com o alheamento dos amigos. Não fazem perguntas íntimas”.  
Assim, salpicado de aforismos que evidenciam as diferenças do masculino e do feminino,  Inês  acaba por lembrar  num longo esboço (apenas na temática, é claro) o baiano João Ubaldo Ribeiro em seu romance A Casa dos Budas Ditosos, publicado em 1999  também pela Objetiva. O livro de Ubaldo  é narrado por uma mulher de 68 anos, nascida na Bahia,  que fala da sua própria vida e das infinitas possibilidades do sexo. Na verdade  o texto revela um Ubaldo que fala das mulheres e de sua percepção sobre elas . Em resumo, uma mulher ideal, aquela mulher que o homem gostaria de ver,  a partir de sua própria imaginação .
Sem entrar no debate sobre o que há de cada autor nos personagens, em ambos os romances,  ou seja, tanto Ubaldo quanto Inês  espreitam  o gênero oposto dando voz a um narrador de outro sexo. No caso de Os Íntimos há momentos curiosos em que a autora deixa transparecer , em cada diálogo,  ou nas entrelinhas destes, como é que uma mulher (ela própria ) pensa que os homens pensam e olham  as mulheres. “Os homens não se propõem a  resolver-nos os problemas, para depois nos atirarem à cara os problemas que nos resolveram. Não nos culpam”...filosofa, num diálogo, a amiga de um dos narradores...E  prossegue, pontuando-o de deliciosas expressões lusitanas como alcatifas (tapete), palrador (tagarela) miúda (garota) ou resmonear (resmungar).   Afinal,  o português no Brasil e em Portugal é a prova maior de que nas diferenças se encontram  preciosas riquezas.
Talvez cansado de responder a infindáveis perguntas sobre a  sua inspiração e a origem do personagem de seu livro mais famoso, o romancista francês Gustave Flaubert disse certa vez: “Madame Bovary sou eu”.  E chocou seus interlocutores. Emma Bovary,  com seus devaneios eróticos,  surge em 1856, em uma época que era totalmente proibido às mulheres qualquer  indício de desejo e transgressão. E Flaubert, curiosamente,  revela que uma das figuras femininas mais famosas da literatura seria, de fato, uma criação masculina.
Lançado no início deste ano em Lisboa Os Íntimos chega ao Brasil num momento em que uma mulher eleita presidente da República reivindica ser chamada de “presidenta”. Talvez  para além da flexão de um artigo a diferença  que separa os mundos masculino e feminino seja apenas uma questão de olhar.
Inês Pedrosa explica que ao deixar toda a sua narrativa para as vozes masculinas tentou apenas entender por que há certos rituais que são exclusivos dos homens, como os encontros em estádios de futebol ou restaurantes.  E mais do que isto, Inês explica que tentou neste livro “ser mais ousada na escrita, polir as frases, tirar-lhes o verniz e escrever sobre sexo de uma forma tão clara e crua quanto possível.” E nisto, o discurso dos homens ajudou.

05/01/2011

O Feijão e o Sonho

foto de Barbara Novaes



Mara Bergamaschi

A posse das oito[1] novas ministras de Dilma foi didática e interessante. Apesar de protocolar, este tipo de evento é também simbólico – por isso mesmo, revelador. Até de condutas estereotipadas – mas reais. Numa primeira comparação entre o que disseram os homens-ministros e o que disseram as mulheres-ministras surge uma sutil diferença: os homens foram todos afirmativos, anunciando projetos, metas e cifras ambiciosas. Alguns penderam para a grandiloquência, repetindo o batido “nunca antes” do ex-presidente Lula. Assim, soubemos que “o Brasil será o primeiro país tropical desenvolvido da história". Promessa é denominador comum entre homens? Parece que sim.
E as ministras? Mais feijão do que sonho. A fala de Iriny Lopes resume o que sobressaiu nos discursos das novatas. “Sou mineira, chego devagar. Melhor deixar um legado muito importante do que sair fazendo barulho e não conseguir fazer nada." Elas não foram evasivas, tocaram nas questões centrais de sua área, mas sempre com uma visão prática e realista. Iriny, que terá a missão de defender as mulheres, afirmou essa meta a partir de um exemplo do cotidiano. “Como vamos colocar as mulheres para trabalhar e serem autônomas se os filhos continuarem como tarefa exclusivamente feminina?” Sobre o aborto, foi cautelosa: disse que nenhuma mulher pode ser obrigada a ter um filho, mas deixou uma eventual iniciativa de mudança da lei para o Congresso. Discurso moderado também adotou a ministra da Igualdade Racial, Luiza de Bairros. Defendeu as cotas, mas sem imposição.
Até a mais poderosa das ministras, a do Planejamento, Miriam Belchior – que chorou e prestou homenagem ao ex-marido Celso Daniel, assassinado em 2002 – optou pela modéstia. Ela poderia ter recheado seu discurso com os bilhões do PAC sob sua administração, mas preferiu a economia doméstica, considerada outro ponto forte das mulheres. “É possível gastar com qualidade, fazer mais com menos”, reafirmou Miriam. Tereza Campello (Desenvolvimento Social), que já cuidava, como secretária-executiva, do Bolsa-Família, foi a única a acenar com benesses: disse que aumentará logo o valor do benefício. Talvez por estar no ministério há tempos, exagerou na apologia de suas realizações. Por fim, também mencionou o marido, Paulo Pereira, ex-tesoureiro do PT, como parte da “geração de homens orgulhosos de suas mulheres“.
Quem também prometeu austeridade no orçamento foi a ministra da Pesca, Ideli Salvati. “É um ministério bíblico, de multiplicar os peixes. Vamos ter que fazer o milagre de fazer mais com menos", disse. Ex-senadora, candidata derrotada ao governo de Santa Catarina, Ideli foi o tom dissonante da posse. Habituada à defesa intransigente do governo Lula, ela continua, mesmo sob nova direção, beligerante: disse que há “ignorância” sobre seu ministério e mandou os críticos “pescar”.
Jogo aberto - “Continuar não é repetir”, ensinaria Anna de Holanda, citando ninguém menos do que a chefe Dilma Rousseff. Autora do discurso de posse mais inspirado, a ministra da Cultura trouxe ao palco outra característica feminina: o gosto de discutir a relação. Desta vez, com a cultura. Disse que não quer “a casa arrumada pela metade”, que seu coração “bate pelos criadores” e prometeu atuar segundo os binômios “suavidade e firmeza” e “delicadeza e ousadia”. E concluiu: “Até aqui as pessoas têm consumido mais eletrodomésticos e menos cultura. Precisamos fazer o casamento da ascensão social com a ascensão cultural.” Para isso, apelou ao Congresso que conclua a votação do vale-cultura – um crédito de R$ 50,00 para este tipo de consumo destinado a trabalhadores que ganhem até cinco salários mínimos.
Coube à ministra de voz mansa, a deputada Maria do Rosário (Direitos Humanos), fazer a cobrança política mais contundente. Ela pediu ao Congresso que seja aprovada a criação da Comissão da Verdade sobre a ditadura, em tramitação desde maio passado. A comissão deve esclarecer os casos e identificar a autoria de torturas, mortes, desaparecimentos, ocultação de cadáveres. O assunto, que se relaciona diretamente com o passado da nova presidente, continua polêmico:o novo ministro-chefe do gabinete de Segurança Institucional (GSI), general José Elito Siqueira, já discordou. Na posse, disse que o “Brasil não deve olhar para trás”, pois isso seria “perda de tempo e não levaria a nada”.
No balanço geral, predominaram os ares da conciliação, exaltada pela presidente ao assumir o cargo. Isso foi percebido numa área que tem sido, segundo seus próprios interlocutores, “excepcionalmente tensa”: a comunicação do governo com a imprensa. Classificada como “jeitosa” por seu antecessor Franklin Martins, enquanto ele seria considerado “grosso”, a nova ministra, Helena Chagas, chegou avisando que não se discute liberdade de imprensa porque ela não está em questão. A pasta de Helena Chagas será certamente o termômetro da distensão.




[1] A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, foi reempossada: não houve, portanto, transmissão de cargo

02/01/2011

Retalhos do Cotidiano Feminino


A escritora canadense Alice Munro


Elza Pires de Campos
(publicado no Correio Braziliense em 01/01/2011)

As tragédias do cotidiano são como retalhos nos dez contos do mais recente livro da canadense Alice Munro; cada trapo, uma  vida pendurada no tempo; uma costura delicada a exigir paciência.
Seja nas montanhas cobertas de neve do inverno canadense ou nas falésias e piqueniques de verão, as personagens femininas ocupam todo espaço. Em vidas que se revelam, em alguns casos, apenas no intervalo de um soluço. Histórias curtas e rápidas, dentro de um rigoroso recorte. Aos 79 anos, Alice Munro  foi vencedora, no ano passado, do Prêmio Booker, um dos mais importantes  prêmios literários atribuídos anualmente a escritores de língua inglesa. Ao lado da também  canadense Margareth Atwood, Alice é considerada um dos expoentes da literatura daquele país do extremo norte-americano, uma especialista no gênero conto.
 Suas heroínas gravitam num universo tão comum que pode até confundir o leitor, pela simplicidade, pelo inusitado ou simplesmente pelo estranhamento dos detalhes. Mulheres ainda  jovens e outras já no final da existência, saudáveis, doentes, apaixonadas, viúvas solitárias, esposas traídas, comerciantes e serventes. Alguns contos podem se resumir em apenas uma frase: “eu cresci e  hoje estou velha...” .
         Na narrativa de Alice os tempos se misturam.  Talvez com o único objetivo de mostrar a alma das personagens.  O que leva o leitor a descobrir sempre uma  outra mulher por trás daquela que se apresenta,  como se fosse a sua irmã gêmea emocional.  As tragédias surgem nas filigranas cotidianas das inúmeras dificuldades do universo feminino. Aí está o segredo das maravilhas não reveladas por Alice.
Como a surpreendente senhora Nita, do conto “Radicais Livres”. Recém curada de um câncer, ela perde o marido, vítima de um infarto. Viúva,  mergulha na inércia do dia a dia, em uma casa cheia de pequenas lembranças que compõem sua solidão.  Tenta sobreviver até que um dia, totalmente distraída, abre a porta para um homem que ela pensava ter vindo verificar um relógio de luz.
Na verdade, ele era um assassino em fuga que acabara de matar toda uma família. O diálogo entre os dois é totalmente inusitado. Ela lhe oferece comida, ouve o seu relato e, como a Sherazade das Mil e Uma Noites, começa a contar histórias na tentativa de ganhar  tempo. Depois de vencer um câncer e ficar viúva, Nita percebe, na fração de alguns segundos e diante de um assassino, que ainda quer viver.
Assim como também tenta viver a jovem mãe que perde suas três crianças assassinadas pelo marido.  Em uma nova cidade, cabelos curtos, tingidos e espetados, um emprego de camareira em um hotel onde todos desconhecem seu passado, Doree trabalha, ocupa os pensamentos.  Das cicatrizes vai cuidando com auxílio da assistente social.
Nos outros contos há crianças perturbadas (como Kent, em “Buracos-profundos”),   bizarros predadores sexuais (“Wenlock Edge”) e narradores que rememoram e  descobrem  dentro de si,  quando ciranças, a capacidade de assassinato (“Charlene em Brincadeira de Criança”).
As flutuações do desejo feminino e as relações de amor e amizade também estão presente no último conto que dá nome ao livro, “Felicidade Demais”. Aqui Alice faz um recorte nos últimos momentos de  vida  de Sophia Kovalevsky, a primeira mulher a se tornar professora universitária de matemática na Suécia no final do século XIX.
Sophia nasceu na Russia, atuou como jornalista em São Petesburgo, se consagrou na Alemanha como romancista e matemática, militou politicamente na Comuna de Paris  e conviveu com várias personalidades da época.  Alice Munro ressalta suas habilidades, revela o fervor dos exercícios matemáticos que se misturam com uma ebulição de idéias literárias.  Como em vários personagens que habitam o mundo de Alice, e ela mesma reconhece, há  também neste conto material para um romance. Que ela, habilmente, resume em menos de vinte páginas.


(Felicidade Demais  -Alice Munro
  Companhia das Letras -339 pgs)



30/12/2010

A literatura pode transformar o seu mundo?

 Coluna da Eliane Brum no site da Revista Época 27/12/2010
"Qual a importância da literatura na vida cotidiana de cada um"?

Não sou muito dada a inícios convencionais de ano. Recomeço tantas vezes num ano só e sempre em datas imprevistas que não vejo muito sentido em festejar um dia específico do calendário. E o fato de não encontrar sentido na comemoração da data não me torna nem melhor nem pior do que ninguém. Mas como de algum modo a maioria das pessoas para – ou é parada – nessa época para pensar na vida e promover um recomeço simbólico, quero dar uma sugestão. Além das metas de sempre – parar de fumar, perder uns quilos, se matricular na academia de ginástica etc etc –, minha proposta é que cada um de nós se arrisque a descobrir a literatura. Tenha a coragem de chutar para o ano que passou a surrada desculpa do “não tenho tempo para ler” e se carregar para o futuro com espaço para o novo que vem das letras. Por quê? Por nada de útil. Por tudo o que importa.
No Paiol Literário, um evento que leva a Curitiba escritores para uma entrevista pública, há uma pergunta clássica e recorrente: “A literatura é capaz de transformar o mundo?” Ela vem entrelaçada a uma outra: “Qual é a importância da literatura na vida cotidiana de cada um?”. Quem criou essas duas perguntas no início do projeto, em 2006, foi José Castello – jornalista, crítico literário, escritor e uma das pessoas mais gentis que andam por esse mundo. Depois, Luís Henrique Pellanda, também jornalista e escritor, seguiu com elas ao substituí-lo no posto de entrevistador.
Perguntei a Pellanda se ele poderia emprestar algumas respostas colecionadas ao longo dos anos para publicar aqui nesta coluna. E ele, que também é um homem muito gentil, me enviou sete. Eu escolhi as três que mais me cutucaram com um dedo delicado, mas incisivo, para compartilhar com vocês nessa conversa de virada de ano. Acho que são respostas que dão coceira na alma. E coceiras da alma, na minha opinião, só se resolvem com arte. Com literatura.
Sérgio Sant’Anna, autor, entre outros, de Um Crime Delicado e O Voo da Madrugada, ambos publicados pela Companhia das Letras, respondeu que a literatura dá ao leitor uma possibilidade imperdível: “Ler não é só adquirir conhecimento ou experiência de vida. É também a possibilidade de ter outra vida, de viver o imaginário. E não é só o escritor que tem isso. O leitor também tem. Ele é um cara que vive dupla ou triplamente”.
E, em seguida: “A literatura é um ato de prazer, que não deve ter segundas intenções. Ela dá aos leitores um espaço muito maior. Se você está lendo um livro, se vê obrigado a criar junto com ele — algo que, na televisão, não existe. Na TV, você pega as coisas mais mastigadas, uma torrente de anúncios e de segundos interesses. É muito ruído.”
Silviano Santiago, autor, entre outros, de O Falso Mentiroso e Anônimos, ambos editados pela Rocco, diz que todo leitor é também escritor. Ele afirma: “É inegável que a literatura tem uma função, assim como todas as artes têm. O primeiro cuidado a ser tomado, se a gente fala da função da literatura, é não fazer uma divisão entre produtor e consumidor. Ou seja, não fazer distinção entre escritor e leitor. Acho que a literatura tem a mesma função para ambos. Não existe um escritor que não seja leitor. Todo leitor é, por sua vez, um produtor de texto. Nós, escritores, escrevemos em uma folha de papel ou na máquina ou no computador, enquanto o leitor escreve naquilo a que os jesuítas chamavam de ‘folha de papel em branco da mente’”.
Santiago diz também que, ao ler, o leitor se apropria daquele mundo e o torna seu. Não apenas seu por estar dentro dele, mas seu como ele mesmo. “O processo de leitura é um exercício de alteridade. É você entrar em um determinado mundo que não é o seu, no qual se entra muitas vezes por um processo de surpresa. Você não esperava aquilo de maneira alguma e, de repente, entra e se encanta com aquele mundo. Quanto mais se entra naquele mundo, mais se apropria dele, mais torna aquele mundo você mesmo. O leitor sensível, inteligente, sempre conseguirá ver as relações estreitas entre aquilo que está lendo e a possibilidade de transformação, seja da realidade imediata, a realidade do mundo, seja ainda e, sobretudo, de si próprio.”
A literatura nos dá muito. Mas não promete nada. É o que disse Luís Henrique Pellanda, autor de O Macaco Ornamental (Bertrand Brasil), ao trocar de lado e responder a uma pequena entrevista para esta coluna. “A literatura não promete felicidade alguma — pelo menos não do tipo clássico, ou seja, o tipo imaginário — e não nos oferece garantias de finais felizes, nada disso. Ela nos amplia a vista de casa, nos mostra o outro — igual e diferente de nós — e exige que nos comparemos a ele, que nos analisemos e, de alguma forma, promovamos reformas internas”.
Ao responder à sua própria pergunta sobre o poder de transformação da literatura numa crônica recente, Pellanda disse lindamente: “Literatura, para mim, pode ser simplesmente a maneira como reordenamos, há milênios, as mesmas histórias, fabulação sobre fabulação, mentira sobre mentira, verdade sobre verdade, e o uso pessoal — íntimo, social, político, intelectual, espiritual — que fazemos delas. Se a literatura é capaz de mudar o mundo? Eu diria que o mundo em que vivemos, bom ou ruim, já é o mundo da literatura. Só ela dá conta das nossas histórias de amor”.
Beatriz Bracher, autora, entre outros, de Antonio e Azul E Dura, ambos publicados pela Editora 34, respondeu à mesma pergunta em duas etapas. Na primeira, no Paiol Literário, ela disse: “A arte pode transformar o mundo ou não, como muitas outras coisas, como as ideias e a política. Mas não acho que ela tenha uma proeminência nesse aspecto. Ela pode transformar o mundo simplesmente por fazer parte dele. Ela está aí. Agora, essa crença de que a arte transformaria radicalmente o mundo, que criaria um novo homem, que nos traria uma espécie de iluminação — não acredito nisso”.
“Por que é importante ler?” – ela pergunta a si mesma. “Não sei. Acho que ler um livro é importante para você não estar aqui nem agora. Para você não ser você por um tempo. Para você ser os outros e habitar outros lugares durante o tempo em que estiver lendo. E, quando você voltar ao aqui e ao agora, a você mesmo, voltará com os olhos muito mais aguçados. Eu saio de um livro sempre muito comovida, ou tocada, ou agressiva. Sempre me transformo de alguma maneira. Fala-se muito que temos uma grande afeição ao caos, que o mundo é informe e que a arte daria forma às coisas. Na verdade, temos pânico do caos. Nós não conseguiríamos viver sem alguma ordem na nossa história. E o que a literatura faz é desordenar um pouco isso, mostrar outras maneiras de organizar nossa vida”.
Beatriz foi para casa e continuou provocada pela pergunta. Enviou então um email a Pellanda. E um bem bonito: “Por que é importante ler? No nono e último círculo do Inferno, de A Divina Comédia, estão os traidores de seus hóspedes. Dante conta que eles estão perpetuamente imersos no gelo apenas com a cabeça de fora e os rostos voltados para cima, impedidos de continuarem a chorar, pois as lágrimas do ‘primeiro pranto, qual viseira de cristal’, congelam-se depois de inundar ‘do olho a cava inteira’. Fiquei pensando se a literatura também não é a possibilidade de abaixar o rosto e chorar de olhos fechados. Desprender-se de uma só dor e poder chorar, inclusive, a dor de muitos outros”.
Como se pode abrir mão de algo assim? Viver sem essa possibilidade? É Pellanda quem nos sacode: “Não ler, em muitos casos, é sintoma de preguiça e falta de condicionamento. Um mal prosaico. Muita gente não lê por levar uma espécie de vida mental sedentária. Aceitam que sua fome tão humana de fabulação seja alimentada pela TV ou pelos blockbusters e, com isso, apenas engordam sua passividade. Digo, de cara, que quem não lê perde a chance de se mostrar ativo em relação ao seu mundo e ao seu tempo. Perde vitalidade. Perde uma ótima oportunidade de se treinar para uma vida mais rica e, quem sabe, feliz”.
No Brasil, um país onde se lê tão pouco e onde metade dos adolescentes tem dificuldades para interpretar um texto, acredito que é preciso profanar a literatura. Aprendi isso com o poeta Sérgio Vaz, criador da Cooperifa, o maior sarau de poesias do país. Os livros precisam deixar de ser sagrados e virar matérias das ruas, tocados por muitas mãos, marcados por lágrimas, suor e gordura. Antes de iniciar a leitura, é preciso apalpar, cheirar, bolinar o objeto que contém a história – ainda que isso seja feito virtualmente. É importante perder o medo dos livros, um excessivo respeito. Incinerar para todo o sempre a ideia de que a literatura é território restrito dos que supostamente sabem mais e torná-la matéria permanente das nossas vidas. Espécie de feijão e arroz da alma.
Não importa o que você lê nesse primeiro movimento, importa que você comece a ler. Leia por prazer. Leia por temor. Leia por coragem e por inocência, fingindo desconhecer que não será o mesmo depois do ponto final. Ninguém precisa começar lendo Proust – nem mesmo precisa ler Proust alguma vez na vida, embora eu ache que vale a pena. Leia aquilo que lhe dá prazer – ainda que seja um prazer vindo do incômodo – e crie uma história só sua com os livros, movida pela sua própria busca. Vá à livraria ou à biblioteca como se fosse a uma festa de gente desconhecida – e até esquisita – e veja com quem tem afinidade, quem lhe sorri, mostra a língua ou um naco da coxa.
O melhor da literatura é que ela não nos dá nenhuma resposta. Nos dá algo muito melhor: nos dá novas perguntas. Perguntei a Pellanda de onde veio a indagação que motivou este texto. Ele respondeu: “De onde vem uma pergunta? De nossa compulsão por saber das coisas, uma compulsão imortal, que nunca será saciada, pois jamais saberemos de nada. E não é ela, essa incerteza sedutora, que nos leva a escrever e a ler? Já se tornou um clichê dizer que a boa literatura não nos responde coisa alguma, e que somente nos faz mais perguntas, apenas perguntas, e irrespondíveis. É um lugar-comum, ok, mas está correto. A última frase de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, é uma pergunta e a usei como epígrafe de meu primeiro livro de ficção. Depois de mais de oitocentas páginas, não se conclui nada, e o narrador de Mann se pergunta: ‘Será que também da festa universal da morte, da perniciosa febre que ao nosso redor inflama o céu desta noite chuvosa, surgirá um dia o amor?’. Será? Não sabemos. Não há resposta possível, nunca houve. E a literatura é isso, fazer as perguntas difíceis, às vezes as constrangedoras. Como aquelas que as crianças nos fazem”.
Para mim não há vida sem literatura. E mais tarde, num outro dia, darei minha própria resposta à pergunta maior do Paiol Literário. Por enquanto, desejo a você que, em 2011, se arrisque mais. Leia. Se já tem intimidade com os livros, aprofunde-a. Tente um território novo. Fale sobre livros em vez de falar mal do chefe, do vizinho, do colega. Faça um favor a si mesmo: prometa que, no novo ano, jamais dirá que não tem tempo para ler.
Talvez a gente nunca saiba se a literatura é capaz de transformar o vasto mundo de fora. Mas podemos nos arriscar a descobrir – e esta é uma tarefa pessoal e intransferível – se a literatura é capaz de transformar o nosso mundo. O meu, o seu. Acredito profundamente que sim. Se tivermos a coragem de tentar, o mundo de dentro vai se alargar. E andaremos por aí carregando nosso próprio horizonte.
Termino com mais algumas ótimas frases de Luís Henrique Pellanda. E as pego emprestadas como meus votos de Ano-Novo:
– Quer dizer, você sabe ler e não lê? Onde é que você está com a cabeça? Achou seu espírito no lixo? Leia. Aproveite.

28/12/2010

Bibliotecas da Colômbia, exemplos para o Brasil





Enviado por Mara Bergamaschi*, de Bogotá,
Publicado em O GLOBO - 25.12.2010 | 09h15m


El Tunal é longe: há mais de uma hora passam favelas ao longo das duas pistas, mão e contramão, ao sul de Bogotá. De um lado, casas de tijolos claros, sem reboco, já não cabem na planície: aproximam-se da cordilheira e misturam-se com ela, bordando o sopé da montanha com tons mais leves de marrom. Parecem esculpidas na terra, arqueológicas. Do outro lado, sem a muralha, construções espraiam-se a perder de vista. A tarde ainda está pelo meio, mas há pouca luz e faz frio. O céu está nublado, a garoa vai e vem. Penso que é pior viver ali, sob aquele insano equatorial-de-altitude, do que nas favelas do Rio: pelo menos no balneário tropical há sol, céu azul e, em alguns casos, até a vista esplêndida da baía e das praias. Em Bogotá, alternam-se, em fração de horas, calor-frio-secura-vento-chuva, com vantagem inequívoca, a 2.600 metros, para a friagem. Sob os Andes, o clima é rude para humanos, mas ótimo para plantas, que vicejam e florescem, como se cultivadas em estufas. De cima, do avião, os vales rurais da Colômbia não são verdes; são verdíssimos, de todos os matizes. Mas ali, onde se estende parte da imensa periferia urbana, ocupada por três dos oito milhões de habitantes da capital, quase não há mais vegetação. Quase: quando surge um espaçoso gramado com árvores esparsas, chegamos. Eis enfim a Biblioteca Pública Parque El Tunal, com seu grande rabo de baleia — escultura no espelho d’água da fachada que é também a logomarca da instituição.


Autores brasileiros são populares no país


Mal entramos e o diretor, de gravata, já está a postos para mostrar o local aos mais de 50 brasileiros, professores da rede pública, em sua maioria. Professoras, na verdade. Há somente meia dúzia de rapazes. O grupo está ali por ter se destacado com experiências inovadoras de leitura em suas escolas. Alguns projetos são mais do que criativos: Malvão, o único professor de 48 crianças e adolescentes de uma isolada comunidade caiçara de Paraty, instalou uma biblioteca num rancho de pesca, onde se guardam barcos e canoas. Todos os dias, ele pega um ônibus, uma van e um bote para dar aulas. Quando o mar encrespa, caminha por duas horas e meia pelas trilhas. Seus colegas enfrentam outras adversidades. Muitos trabalham em periferias semelhantes a que acabamos de atravessar. Outros têm mais sorte: dão aulas em escolas bem equipadas e localizadas. Mesmo esses nunca viram bibliotecas públicas como as da Colômbia. A espetacular Virgílio Barco, visitada no dia anterior, fez todos entenderem porque Bogotá, sede de um Estado convulsionado há décadas por combates entre guerrilheiros, paramilitares, narcotraficantes e soldados, foi declarada pela Unesco Capital Mundial dos Livros em 2007. Mesmo em guerra, a pátria de Gabriel García Márquez lê — atividade que talvez mais convide ao silêncio e à paz. E conhece bem a literatura infantojuvenil brasileira. Autores como Ana Maria Machado, Lygia Bojunga, Ângela Lago, Nilma Lacerda, Bartolomeu Campos de Queirós, Marina Colasanti, traduzidos desde os anos 1980, são considerados fundamentais para a renovação do gênero na Colômbia. Roteiro melhor, ainda que exija um pouco de coragem, não poderia haver para os professores premiados pelo Concurso Escola de Leitores, organizado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e Instituto C&A.

Na Bogotá vez por outra aterrorizada por carros-bombas, as bibliotecas estão vivas. Inclusive as localizadas nas áreas mais pobres e violentas. O diretor Róbinson Areliano que o diga. Versão mais modesta da nave-mãe Virgilio Barco, El Tunal, a terceira maior, por onde passam em média 4 mil pessoas por dia, tem excesso de demanda: recebe três vezes mais crianças do que comporta. Bayron Vargas tem dez anos e é frequentador assíduo. Com nome de poeta, segue seu destino, entre livros.

— Gosto das histórias, dos trabalhos, de tudo, por isso venho todo o dia — diz.

Para acomodar tanta gente, os 63 funcionários precisam reinventar o espaço.

— Nos fins de semana, montamos tendas e guarda-sóis no parque para pais e filhos — diz o diretor, também bibliotecário.

Róbinson, que deve estar na faixa dos 40, é igualzinho à maioria dos seus conterrâneos, mestiços de brancos e índios. Mas há algo diferente, que o faz se parecer mais com os brasileiros: ele é sorridente. De maneira geral, os bogotanos se mostram gentis, mas fechados. As mulheres, mesmo jovens, costumam ter um olhar assustado. É que quase todo mundo tem uma história brutal para contar, que vitimou gente distante ou próxima. Os períodos de trégua, como o vivido atualmente, parecem insuficientes para revogar o semblante sério. Que se repete, identifico agora, em todas as figuras redondas, supostamente divertidas, de Botero: no Museu, nenhum de seus retratos sorri, nem incognitamente (exceção aberta só mesmo na sua versão da Monalisa). O que o artista capturou de seu povo, que aliás nada tem de obeso, foi, deduzo, esse deficit de alegria. Anti-Botero total, magro e feliz, Róbinson defende que os livros ajudem a conduzir os niños ao mundo da imaginação e da fantasia.

— Não queremos oferecer o que já vivem nem recordar a dureza de seu ambiente — diz, nas salas decoradas com dragões feitos pelos estudantes.

“Então as crianças não vão falar de suas vivências?”, questiona na mesma hora a bibliotecária Silvia Castrillón, organizadora do périplo dos brasileiros. Envolvida há anos nos movimentos sociais pró-leitura, diz que El Tunal é o seu projeto favorito.

— Aqui, a comunidade está presente — justifica.

Mesmo assim não deixará passar em branco suas divergências. Ao contrário de Róbinson, Silvia não exalta o lúdico: considera a relação com os livros um prazer que se conquista com algum esforço, em todas as idades. Suas convicções, que agradaram os professores brasileiros, são firmes: não existe leitura sem debate e sem escrita. E não haverá aluno-leitor sem que haja antes professor-leitor. Engajada, a senhora grisalha, que já teve cargos estratégicos em governos e no mercado editorial, continua disposta a consertar tudo. Deplora a “moda das bibliotecas escolares” que não colocam a literatura, a palavra, no centro do trabalho. E critica a escola colombiana por não fazer frente aos problemas do país:

— Não falam da violência nem da guerra.

O feijão ou o sonho? Quem venceria a batalha em El Tunal, nos supostos domínios do reino encantado, seria a dura realidade. E de forma surpreendente. Alguém já imaginou se aproximar de painéis coloridos, com aplicações costuradas a mão, e ver cenas de assassinato e sequestro, cadáveres e sangue, crianças e mães em fuga, além de um povoado destruído por homens armados? A narrativa completa de um desplazamiento (êxodo forçado), imposto por paramilitares à comunidade de Mampuján, em 2000, foi registrada por 15 mulheres sobreviventes. Estima-se que 10% da população do país — mais de quatro milhões de pessoas — tenha sido desalojada pelos conflitos. A primeira reação àquela estética do paradoxo é o choque: como pode o horror ser mostrado com tanta delicadeza?

— Há algo de punk no ar — resume Patrícia Lacerda, especialista em educação, coordenadora do Concurso de Leitores.
Sua impressão seria reforçada pela leitura de títulos infantojuvenis de sucesso local. Em um deles, Chapeuzinho Vermelho simplesmente envenena o Lobo Mau com um caramelo. E diz no final: “como és inocente!”


Bibliotecas colombianas impressionaram Vargas Llosa

Hoje no comando da Asolectura, ONG que responde por 40 Clubes de Leitores, Silvia Castrillón conhece e acompanha o mercado contemporâneo. Mas sem perder jamais suas referências: é fã da pedagogia do oprimido de Paulo Freire, que cita sempre. E de vários escritores brasileiros: muitos dos que são populares entre nossos hermanos foram editados e algumas vezes traduzidos por ela. Também levou e conseguiu implantar em seu país propostas — como o fundo das editoras em favor da leitura —, inconclusas há anos no Brasil. Nossa anfitriã em Bogotá tem, portanto, fortes e antigos laços conosco. A secretária-geral da FNLIJ, Beth Serra, é testemunha disso:

— É incrível, mas Silvia pegou ideias, levou e fez antes de nós.

Os esforços educacionais do país para elevar o status da literatura e popularizar os livros ganham cada vez mais visibilidade. Mesmo distante, a biblioteca El Tunal já consta dos roteiros turísticos internacionais e vem atraindo gente famosa. Róbinson, que está lá desde o começo, há nove anos, não nos conta, mas o escritor peruano Mario Vargas Llosa, que conquistou o Nobel de Literatura em 2010, esteve lá. Ficou tão impressionado que seu verbete sobre a Colômbia, no “Dicionário Amoroso da América Latina”, de 2005, é dedicado unicamente às bibliotecas de Bogotá. “São autênticos eixos da vida comunitária desses bairros humildes, onde vão as famílias em suas horas de lazer, porque nesses locais e ao seu redor, velhos, crianças e jovens se divertem, se informam, aprendem, sonham, melhoram e se sentem participantes de uma iniciativa comum”.

No gramado da biblioteca, meninos uniformizados empinam seus “cometas” coloridos contra o céu cinza. Aproveitam os bons ventos. Quando saímos, os pingos de chuva voltam a cair. As crianças correm. Se precisarem, o refúgio está bem ali. Em tempos de guerra e paz. 

* MARA BERGAMASCHI é jornalista e escritora

20/11/2010

Flor de Cacto

Flor de Cactos - foto de Mara Bergamaschi




Flor de cacto, flor que se arrancou
À secura do chão.
Era aí o deserto, a pedra dura,
A sede e a solidão.
Sobre a palma de espinhos, triunfante,
Flor, ou coração?

José Saramago

14/11/2010

Simone e Virgínia: preciosas releituras

Simone em sua mesa de trabalho
Publicado no jornal Correio Braziliense em 23/10/2010
Virgínia em diferentes momentos
                  Elza Pires de Campos

“A Casa de Carlyle”, de Virginia Woolf, e “A Mulher Desiludida”, de Simone de Beauvoir, inauguram a coleção Fronteira,* da editora Nova fronteira, a preços acessíveis.
A meta é abrir espaço para clássicos e resgatar obras há tempos esgotadas.


Em “A Casa de Carlyle”, os seis contos foram escritos em 1909, recuperados depois de anos deixados em uma gaveta de uma jovem que datilografava os manuscritos da escritora. Vieram a público recentemente, em 2003. Preciosidade de uma Virgínia Woolf então com vinte e sete anos. Não por acaso, em um dos contos ela descreve, num texto curto e surpreendente, a cena banal de uma vara de família em que um casal se separa. Na Inglaterra vitoriana da época, em que as jovens da burguesia eram mães antes dos vinte, Virgínia ainda não decidira se casar.
Transgredia ganhando a vida dando aulas à noite para adultos, num período em que as mulheres, além de não trabalhar, não podiam votar ou frequentar universidades. Virgínia estudou em casa, na biblioteca do pai. Naquele ano recebera uma proposta de casamento. No último conto deste livro, “Vara de Família”, um homem e uma mulher, que se odeiam e se magoam profundamente, buscam a separação diante do juiz. No curto esboço de duas páginas, e nos demais seis contos, está resumido tudo o que interessa e vai interessar Virgínia pelas próximas décadas da sua vida de escritora. O eu e o nós, pensamentos e sensações, a sonoridade das frases, os olhares, as minúcias, tudo tão simples mas que diz tanto, como, por exemplo, o frio que corta ou a lama que entra pelos sapatos. Nestes seis fragmentos esquecidos e tão antigos é possível vislumbrar a Virgínia exploradora que foi da alma humana.
Já Simone de Beauvoir, em “A Mulher Desiludida”, solta em cena a loucura e o medo das suas personagens femininas. Em três contos distintos - um diário, um monólogo e um manuscrito -, o espaço da narrativa pertence a três mulheres. O que as entrelaça é que são todas desiludidas. A faixa etária está entre quarenta e cinqüenta anos, quando já estão no desalento de uma vida em que a juventude e a beleza lhes escapam, o amor não aconteceu, e provavelmente jamais aconteça, os filhos estão criados, o trabalho se repete e a profissão, onde a criatividade acabou, não dá o menor prazer .
Uma delas, militante política e professora, fez com que o filho seguisse seus passos profissionais. Projetava no garoto tudo que não fizera, até que ele cresce e passa a ter luz própria. Daí em diante ela, a mãe, delira e não consegue deixar que ele se vá. Insiste em continuar orientando, mandando, determinando o que o jovem, casado, deve fazer da sua vida. Sem perceber, torna-se infeliz e deixa mais infeliz ainda aquele a quem tanto ama. A outra personagem, do segundo conto, cultiva um monólogo para se esquecer das brigas diárias com a filha adolescente.
O terceiro conto, que dá nome ao livro, revela a mulher que, com medo de acabar com o longo casamento que já acabou, finge não se incomodar que o marido tenha uma amante. Convive com a situação e se violenta. Para desabafar, escreve um diário.
“Procurei transmitir aos meus leitores algumas experiências das quais participei de forma direta ou indireta”, explicou Simone na época do lançamento do livro, no início dos ano 70, ao lembrar que havia recebido confidências de várias mulheres, algumas abandonadas pelos maridos ou companheiros. Observara pontos em comum entre elas e resolveu reunir parte daquelas histórias em um livro.
Nos pormenores destas três histórias, salpicadas de fatos reais, Simone resgata um aforismo que a deixou famosa na década de sessenta, bandeira do hoje  já embolorado movimento feminista: “Não nascemos mulheres, nós nos tornamos". Boa frase para se lembrar no momento em que a campanha eleitoral fervilha em torno do aborto. Não custa nada acrescentar que as duas --Simone e Virgínia -- lutaram pelo direito de escolher ter ou não ter filhos, um dos temas que impulsionou o feminismo em passeatas, isto no mínimo há quatro décadas.
* já se encontram também disponíveis na mesma coleção Corpo de Baile de João Guimarães Rosa; A escrava que não é Isaura, de Mário de Andrade;A cinza das Horas, de Manuel Bandeira; Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues e Morte em Veneza de Thomaz Mann.